Ttulo: Festa no Mar.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: The Sign of Love.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.
CARTLAND

A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo

Coleo Barbara Cartland n 189

"Voc j tem dezoito anos, e quanto antes se casar,
melhor. Alm do mais, no tenho condies
de mant-la! "
Sir Charles advertira  filha que ela teria de acabar
aceitando o pedido de casamento de lorde Edgard
- um jovem aristocrata que Bettina conhecera
ao voltar do colgio que frequentava em Paris.
Entretanto, isso no lhe parecia difcil, at que
conheceu o irmo dele - o rico, belo, inconstante
e dissoluto duque de Alveston...

NOVA CULTURAL
Barbara Cartland
Como algum poderia resistir a um homem to encantador.

Festa no mar
Leitura - a maneira mais econmica
de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The Sign of Love
Copyright: (c) Cartland Promotions 1978
Traduo: Snia Orieta Heinrich
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brig. Faria Lima, 2000 - 3? andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda. e impressa na Artes
Grficas Guar S. A.

NOTAS DA AUTORA
Como bacharel da Universidade de Oxford, meu av no podia deixar de 
comparecer s festividades da inaugurao do canal de Suez, em 17 de 
novembro de 1867. A descrio da cerimnia, dos nobres convidados e da 
magnfica festa oferecida pelo quediva do Egito, em Ismaflia,  muito 
precisa.
A construo do canal e as extravagncias de Ismail Pasha causaram a 
bancarrota do Egito, alguns anos depois.
O primeiro ministro da Inglaterra, sr. Benjamin Disraeli, comprou as 
cotas do quediva por quatro milhes de libras.
O sonho de Ferdinand de Lesseps, o responsvel pela construo do canal, 
transformou-se em realidade s depois de muita luta. Essa vitria, cheia 
de aventuras e peripcias,  uma das grandes conquistas do mundo moderno.
Depois de sua obra ter sido reconhecida, momieur Ferdinand de Lesseps 
casou-se pela segunda vez na pequena capela de Ismaflia, com uma jovem 
francesa que lhe deu doze filhos.
A esttua de bronze em sua homenagem, colocada na entrada do canal, foi 
destruda durante um motim, em 1956, mas seu nome continua indelvel nas 
pginas da histria.



CAPITULO I


1869
Os passageiros do barco a vapor que atravessara o canal da Mancha,
oriundo de Calais, aguardavam ansiosos a chegada a Dover.
Apesar da chuvinha que caa, demonstravam satisfao quando a travessia 
terminou e eles puderam, afinal, pisar terra firme.
Uma jovem de grandes e expressivos olhos cinzentos vinha descendo pela 
escada do navio, de brao com uma senhora idosa. Devido  lentido de 
seus passos, deixavam impacientes os passageiros que vinham atrs. 
Finalmente, quando chegaram ao dique de pedra, a senhora cambaleou, e s 
com muito esforo a moa conseguiu ampar-la at chegarem a uma mureta 
onde ela pde sentar-se.
A mulher deu um profundo suspiro e, cobrindo o rosto com as mos, 
desabafou:
- Estou doente, muito doente.
- Eu sei, mademoisetle, mas se a senhora fizer um ltimo esforo, 
poderemos alcanar o trem para Londres, ali do outro lado.
A isso, a mulher apenas resmungou alguma coisa ininteligvel.
- Vamos, vamos - pediu a jovem. - Apie-se em mim, mademoiselle. Talvez 
seja melhor eu passar meu brao pela sua cintura.
Ela tentou colocar a velha senhora de p, mas a francesa gemeu:
- No.  impossvel!
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- Mas no podemos perder o trem. Por favor, mademoiselle, tente ficar de 
p! - insistiu a jovem.
Assim falando, conseguiu que a mulher se levantasse. Mas, em seguida, ela 
escorregou de seus braos e caiu no cho pesadamente.
Horrorizada, a jovem compreendeu que os protestos de mademoiselle tinham 
fundamento e no eram devido apenas ao mal-estar da travessia.
Fora realmente uma viagem penosa. Mesmo antes de deixar Calais, a maioria 
dos passageiros j no se sentia bem, e mademoiselle Bouvais havia lhe 
dito que era pssima navegante.
Mas Bettina jamais imaginara que seria to ruim, principalmente quando a 
embarcao comeou a jogar de popa a proa, rolando por sobre as ondas com 
balanos violentos, at chegar ao porto de Dover.
E agora, a jovem reconhecia que fora uma loucura enviarem uma pessoa to 
idosa para acompanh-la, apesar de mademoiselle ser a nica professora 
disponvel na escola, naquele dia.
Bettina olhava ao seu redor, procurando desesperadamente algum que a 
ajudasse, mas os passageiros tinham pressa de tomar o trem e nem olhavam 
para elas. Vendo uma senhora com ar bondoso que se aproximava, ela pediu:
- Por favor, poderia ajudar-me? Minha companheira... Como resposta, foi 
empurrada grosseiramente, enquanto
a senhora, com seu vestido de tafet e agasalho de peles, caminhava 
rapidamente em direo ao trem.
- Carregador! Carregador! - gritava Bettina. Todos eles, porm, estavam 
muito ocupados com as ordens complicadas que lhes eram dadas pelos 
viajantes, indicando os lugares que desejavam: "Primeira classe, de 
frente para a mquina..." "Numa janela da segunda classe..." "No vago 
dos nofumantes..." "No carro-restaurante..."
"O que poderei fazer?", perguntou-se Bettina, olhando desconsolada para 
mademoiselle, que jazia aos seus ps, plida como cera e com os olhos 
fechados.
Repentinamente, imaginou que ela poderia estar morta,
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e ento, no auge do desespero, gritou para um homem que vinha passando 
sozinho:
- O senhor precisa me auxiliar! Esta senhora est morta ou morrendo, e
ningum quer ajudar!
Ele olhou para Bettina e depois para mademoiselle, que jazia numa poa de 
lama, toda molhada pela chuva.
Sem dizer uma palavra, curvou-se e tomou a francesa nos braos, levando-
a dali.
- Muito, muito obrigada! - exclamou Bettina. - Ela enjoou durante a
viagem, e creio que foi muito esforo para seu corao.
-  bem possvel - comentou o senhor. - E acho da maior importncia que
ela seja atendida por um mdico imediatamente
- Aqui em Dover? - perguntou Bettina.
- Deve haver um hospital. Eu vou me informar. Enquanto falavam, chegaram 
 sala de espera da estao,
e Bettina abriu-lhe a porta, de modo a que ele pudesse entrar e colocar 
mademoiselle sobre um banco de couro.
Ela parecia to pequena, ali deitada! Todo o sangue fugiralhe do rosto, 
deixando sua pele branca e transparente como se fosse a de um cadver.
O senhor tomou-lhe o pulso e acrescentou calmamente:
- Ela est viva.
- Graas a Deus! - suspirou Bettina. - Eu estava com medo que...
- Posso imaginar sua preocupao: ela  muito idosa.
- Era a nica professora que a escola podia dispensar para acompanhar-me 
at Londres.
O moo sorriu levemente diante da explicao e disse:
- Espere aqui, vou ver se encontro um mdico e um hospital.
Voltando-se para a velha, Bettina arrumou-lhe a saia para que cobrisse as 
botinas e desamarrou-lhe a fita do chapu debaixo do queixo. Para 
certificar-se do que o homem dissera, tomou o pulso da francesa, que 
batia muito fraquinho.
Felizmente a sala de espera estava vazia e aquecida. Do lado de fora, 
via-se a plataforma muito agitada e barulhenta, com aquela multido de 
pessoas querendo embarcar para Londres.
S ento se lembrou do carregador, que devia ter colocado suas malas no 
trem e estaria procurando pelas passageiras, para receber uma gorjeta.
Sara na frente, carregando a bagagem, certo de que elas o seguiam, mas 
fora impossvel acompanh-lo.
Voltando  realidade, com o apito da locomotiva, Bettina receou que o 
cavalheiro que tanto a ajudara tivesse embarcado, abandonando-a ali 
sozinha. Ficou muito contente quando o viu entrar na sala de espera, 
acompanhado por um senhor de meia-idade: um mdico.
Este se aproximou e comeou a examinar a velha senhora, tomando-lhe o 
pulso e auscultando-lhe o corao com um estetoscpio.
Bettina observava tudo em silncio.
Finalmente, dirigindo-se ao moo, o mdico disse:
- O senhor tinha razo, ela teve um ataque cardaco, produzido pelo forte
mal-estar sofrido a bordo.  uma ocorrncia bastante comum por aqui.
- Ser que poderamos lev-la para o hospital?
-  claro, milorde. no h nenhum problema. Mandarei uma ambulncia,
imediatamente.
Olhando para Bettina, acrescentou:
- Eu soube que esta senhora  professora e sua acompanhante.
- Sim. Seu nome  modemoiselk Bouvais. Ela no queria vir, e disse-me que 
no suportava viajar de navio.
- Quero anotar todos os detalhes que a senhorita puder me dar, quando 
chegarmos ao hospital - disse o mdico, com uma leve inclinao de 
cabea, ao sair da sala.
- Receio que o senhor tenha perdido seu trem por nossa causa - disse 
Bettina, voltando-se para o moo - mas eu lhe sou muito, muito grata.
- Estou contente de ter podido ajud-las. E quando mademoiselle Bouvais 
j estiver em segurana no hospital, o que pretende fazer?
- Terei de tomar o prximo trem para Londres. Meu pai
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vai ficar muito preocupado quando vir que eu no cheguei com o trem deste
horrio.
- Qual  o seu nome? - perguntou o cavalheiro.
- Bettina Charlwood.
- Eu sou Edgard Veston; lorde Edgard Veston.
- Muito obrigada por ter sido to bom e solcito. Ningum queria me 
ajudar.
- Poucas pessoas se comportam como o bom samaritano numa estao 
ferroviria - replicou o homem.
-  verdade. Parece-me que todos tm medo de trens. So to grandes e
barulhentos que amedrontam qualquer pessoa.
- vou saber o horrio do prximo comboio para Londres. Ser que sua 
bagagem j seguiu no outro? - perguntou lorde Edgard.
- Provavelmente, mas terei de mandar as coisas de mademoiselle de volta.
- Voc no precisa se preocupar com isso. Certamente no hospital vo 
providenciar tudo o que ela precisa.
Olhou para a senhora francesa e adiantou-se para tomar Lhe novamente o 
pulso.
Bettina percebeu sua ansiedade para encontrar o pulso, e prendeu a 
respirao, temendo o que ele iria dizer.
Durante momentos interminveis, o moo segurou aquele pulso frgil, de 
pele muito branca, que aparecia por debaixo do tafet negro da manga, e 
em seguida recolocou-o delicadamente sobre o couro do banco, olhando para 
Bettina.
- Sinto muito, mas creio que no se pode fazer mais nada.
- Oh, no! - exclamou a jovem pesarosamente, ajoelhando-se ao lado da 
velha senhora, como se ainda esperasse que ela abrisse os olhos. - Ela 
no pode estar morta... no pode! - gritou, desesperada.
- Acalme-se, ela no sofreu nada e nem percebeu o que estava acontecendo. 
Creio que a maioria das pessoas desejaria morrer assim.
- com toda a certeza- concordou Bettina maquinalmente.
Pensou em rezar, mas sentiu-se constrangida diante do desconhecido.
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num murmrio,
- Que descanse em paz! - disse num murmrio, levantando-se.
- Por enquanto no h nada mais a fazer, e quando o mdico voltar irei 
saber a que horas parte o prximo trem.
- Mas o senhor acha que devo deix-la... aqui? E os funerais? Ela era 
catlica.
- Sim, eu acredito, mas poderemos deixar tudo por conta do mdico, que me 
pareceu ser pessoa muito sensata e com grande prtica nesta cidade.
com uma expresso de dvida no rosto, a moa olhou para lorde Edgard.
- No se impressione, deixe tudo por minha conta. Tenho certeza de que 
seu pai deve estar preocupado com sua demora - disse lorde Edgard.
- Ele compreender que, de certa maneira, eu... sou responsvel por 
mademoiselle Bouvais.
- Ora, isso no. Ela era a responsvel por voc. Bettina estremeceu, e o 
cavalheiro disse:
- Sente-se junto ao fogo. Voc passou por um choque muito duro. vou ver 
se consigo uma xcara de ch.
- No se incomode, estou bem. O senhor j foi to amvel! Eu no gostaria 
de abusar da sua gentileza.
Aproximando-se da lareira, ela estendeu as mos para aquec-las.
S ento comeou a sentir a reao daquelas ltimas horas to aflitivas.
Ainda h pouco, mademoiselle estava, resmungando e se queixando da 
pssima viagem e do mal-estar que sentia, e agora estava ali, morta. Como 
uma pessoa podia morrer to de repente? Bettina jamais vira um cadver em 
toda a sua vida.
"Morta! "
Que palavra horrvel, pensava a jovem. Havia algo de to profundo e 
estranho em imaginar, como catlica, que a alma de mademoiselle tivesse 
ido para o cu... Sim, porque, sendo uma boa mulher, os portes do 
paraso certamente estariam abertos para ela.
- vou arranjar uma xcara de ch para voc - disse lorde Edgard, 
solcito.
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Do lugar onde estava, olhando para a morta, Bettina pensou: "Tenho de 
fazer uma orao por ela, pois no h mais ningum aqui que possa faz-
lo".
Ainda mergulhada em seus pensamentos, ponderou que poderia ter sido mais 
amvel e solcita com mademoiselle, durante a travessia. Mas mademoiselle 
certamente no era o tipo de pessoa que inspirasse muita simpatia e, 
menos ainda, afeto ou amor.
Nenhuma das meninas do colgio gostava dela, por ser autoritria e querer 
dominar agressivamente os naturais mpetos da juventude.
Naquele momento, Bettina dizia para si mesma: "Pobre mademoiselle, quem 
sabe agora  mais feliz do que em toda a sua enfadonha vida na escola! "
As outras professoras sempre tinham algumas alunas que lhes eram 
dedicadas. E madame de Vesarie, a diretora, escolhia muito bem as 
mestras. Todas sabiam contribuir para o bom nome do internato para moas, 
na Frana.
Madame sempre dizia:
- Na realidade, no h outro colgio igual na Europa!
Mademoiselle Bouyais trabalhara l tantos anos que conhecia melhor a sua 
histria do que a prpria diretora. Por isso continuara morando no 
colgio, mesmo depois de ter ficado muito idosa para dar aulas. Bettina 
sabia, entretanto, que a morte de mademoiselle pouco representaria para a 
escola ou seus componentes.
A notcia certamente seria dada s meninas na hora das oraes, e ento 
todas se ajoelhariam para rezar uma avemaria pela alma de mademoiselle... 
e ningum mais se lembraria de que ela existira.
A jovem ficou penalizada, imaginando como era triste, depois de uma vida 
inteira, ter-se apenas uma prece e, a seguir, o esquecimento total. Ela 
prpria gostaria de poder chorar ou ao menos de sentir mais profundamente 
a morte de mademoiselle, mas no conseguia.
De repente, levantando-se, disse a si mesma: "No chorarei! Eu realmente 
no gostava dela enquanto era viva, por que haverei de fingir, agora que 
est morta? " Lembrou-se
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de ter ouvido o pai dizer certa vez: "Uma poro de flores caras, agora
que est morta. Enquanto estava viva, ningum jamais lhe ofereceu uma
flor murcha, sequer".
"A  que est o erro", pensava Bettina. "Deveramos ser mais atenciosos
com as pessoas enquanto esto vivas, e no representar uma enorme cena 
quando j partiram."
Lembrou-se ainda das muitas flores que enchiam a igreja por ocasio do 
enterro da me. Algumas coroas tinham vindo de pessoas que sua me 
detestava. E naquela poca Bettina j se dissera: "No compreendo por que 
essas pessoas se preocupam em mand-las".
A me teria se divertido com tudo aquilo. Sabia muito bem que elas agiam 
assim s porque desejavam "aparecer" diante de seu pai, que tinha amigos 
influentes e andava frequentemente na companhia do prncipe de Gales.
Ao lembrar-se dos funerais da me, Bettina recordou tambm como seu pai, 
que parecera to abatido com o falecimento da esposa, tinha se recuperado 
facilmente.
- A vida contnua, Bettina - dissera ele, enquanto os olhos da filha 
ainda estavam cheios de lgrimas.
Ela sofrera muito com a perda da me, e s de pensar nisso, j comeava a 
chorar novamente.
- Sim, eu sei disso, papai - dissera ela, s para dar uma resposta ao 
pai.
- No sei o que fazer, agora. vou visitar sua madrinha, lady Buxton. Ela 
sempre se interessou por voc, e certamente me ajudar neste momento to 
difcil.
- Mas em que sentido, papai?
- No sei ainda, mas tenho certeza de que Sheila Buxton saber 
aconselhar-me.
E ela soube mesmo, pois antes que Bettina se desse conta do que estava 
acontecendo, j havia sido enviada para o colgio de madame Vesarie, na 
Frana, onde permaneceria por trs anos.
Naquele vero ela completara dezoito anos. E assim como acontecera com 
todas as amigas, acreditou que em abril seu pai a mandaria buscar, para 
participar das festas das debutantes. Entretanto, quando a jovem lhe 
escreveu sobre o
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assunto, ele respondeu contando que lady Buxton estava doente.
Voc deve ficar a por mais algum tempo. No posso incomodar sua 
madrinha, agora. Para ser bem franco, no h como traz-la para c, neste 
ano, enquanto ela estiver acamada."
Foi um perodo muito triste para Bettina, que recebia as cartas 
entusiasmadas das amigas, contando dos bailes de debutantes, dos teatros 
e outras diverses. Alm do mais, ficara muito s, pois, como j 
completara o curso e estava bem mais adiantada do que as outras alunas, 
suas aulas eram individuais.
Inesperadamente, porm, recebeu um recado de que a madrinha falecera e, 
por isso, deveria voltar imediatamente para casa. Foi uma surpresa, tanto 
para ela quanto para madame de Vesarie, que acabou dizendo:
- Mas seu pai no queria que voc fizesse mais um semestre ao menos 
conosco, Bettina?
- Sim, tambm pensei nisso, madame.
- Voc poderia lembrar-lhe que ainda no recebemos as mensalidades, 
sempre pagas adiantadamente? Faramos at algum desconto, mas o semestre 
j comeou em primeiro de setembro.
- Sim, madame - respondeu Bettina constrangida, compreendendo s ento o 
motivo por que fora chamada to s pressas.
Quem pagava as mensalidades era a madrinha, mas, com sua morte, o 
pagamento certamente fora interrompido.
Lembrou-se de ter visto seus pais sempre em dificuldades financeiras. O 
pai, entretanto, jamais deixara de acompanhar os amigos ricos, mesmo que 
isso causasse sacrifcios para a famlia.
Participava de caadas, competies de tiro ao alvo, corridas de cavalos 
e todos os outros divertimentos programados pelas altas rodas de 
Marlborough House, em torno do prncipe de Gales.
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com o corao cheio de tristeza, Bettina concluiu que para cia, 
certamente, no restara nenhum dinheiro, e agora, com a morte de lady 
Buxton, nem poderia ter um vestido de baile para comparecer a algumas 
daquelas grandes festas.
Mergulhada em tais pensamentos, assustou-se quando lorde Edgard entrou, 
acompanhado por um garom, que trazia uma bandeja com um bule de ch e 
alguns sanduches de presunto.
- Voc se sentir melhor se tomar esse ch e comer alguma coisa - disse 
ele.
- O senhor  muito amvel - agradeceu a moa.
- H um trem daqui a meia hora, e j mandei reservar um lugar para voc 
no vago destinado s senhoras, e tambm encomendei um lanche para sua 
viagem.
Depois de comer um sanduche e tomar uma xcara de ch, Bettina sentiu-se 
melhor. Estava realmente com fome, e s ento se lembrou de que no havia 
comido nada durante a viagem. com o balano do vapor, no sentira vontade 
de comer coisa alguma.
Quando o mdico entrou novamente, Bettina fez meno de se levantar, 
porm lorde Edgard f-la sentar-se outra vez.
- Deixe por minha conta, senhorita. Eu cuidarei de tudo. Os dois homens 
retiraram da bolsa de mademoiselle seus documentos e conversaram baixinho 
num canto da sala.
Dois enfermeiros entraram com uma maca, cobriram o corpo e o levaram. 
Bettina teve vontade de olhar pela ltima vez mademoiselle mas no lhe
deram tempo. S ento o mdico dirigiu-se  jovem, para confirmar os
dados.
- O endereo  o colgio de madame de Vesarie?  para l que devo
notificar o falecimento desta senhora?
- Sim, isso mesmo. No sei se mademoiselle tinha parentes.
- Compreendo. Pode ficar sossegada, srta. Charlwood; tudo ser feito de 
acordo. vou pedir um padre, e ela ser enterrada no cemitrio catlico.
- Sou-lhe muito agradecida por essas providncias.
- Lamento que no tivssemos podido salv-la - disse o mdico, 
despedindo-se.
Lorde Edgard sentou-se ao lado de Bettina, junto  lareira.
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-  melhor eu lhe dar o endereo de papai. Ser que o senhor o conhece?
Seu nome  Charles Charlwood, e  amigo do prncipe de Gales - disse a
jovem.
Para sua surpresa, a fisionomia de lorde Edgard contraiuse ao ouvir essa 
notcia.
- J ouvi falar de seu pai, mas no frequento a mesma roda que ele.
- No? - perguntou Bettina.
- Para lhe ser franco - prosseguiu o lorde -, no gosto do prncipe, nem 
da maioria das pessoas com quem convive.
Sentindo ter sido rude, acrescentou rapidamente:
- Mas, por favor, no pense que estou julgando seu pai, a quem no 
conheo. Revolto-me com a atitude do prncipe, to reprovvel e causa de 
tantos comentrios, diante da situao de sofrimento e misria do pas.
- Na Frana, porm, Sua Alteza Real  muito admirado.
- Certamente ele deixou uma boa impresso em Paris. Mas suas 
extravagncias e as de todo o seu grupo de amigos, assim como as festas 
luxuosas que do, contrastam profundamente com a misria e o desemprego 
das classes mais baixas.
- Ser to ruim assim? - perguntou a jovem.
- Sim,  terrvel! No compreendo a indiferena e falta de interesse de 
tanta gente diante dos graves problemas de muitas cidades da Inglaterra.
Percebendo sua profunda sinceridade, Bettina comentou:
- Ento o senhor procura ajudar os pobres?
-  o que realmente fao, mas no  fcil. Asseguro-lhe, senhorita 
Charlwood, fico revoltado com o egosmo daqueles que tm obrigao de 
tomar decises e nada fazem.
- Que felicidade para o pobre t-lo como defensor!
- Gostaria de mostrar-lhe um dia o que estou tentando fazer para ajudar 
os menos afortunados, mas isso  apenas uma gota num oceano de misria e 
desespero.
Depois dessa conversa, a jovem olhou-o com maior interesse. At aquele 
momento, com toda a confuso da morte de mademoiselle, nem tivera tempo 
de observar melhor aquele homem que tanto a ajudara.
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Apesar da fisionomia simptica, de traos at bonitos, o moo parecia
sombrio, quase cruel.
Elegante e muito bem-vestido, suas roupas, certamente feitas por algum 
grande alfaiate, demonstravam o cuidado de no parecerem exageradas.
"Ele est sempre disposto a ajudar o prximo, e por isso me auxiliou", 
pensou Bettina.
Consultando o relgio, lorde Edgard comentou:
- Nosso trem deve estar chegando. vou procurar um guarda que nos ajude a 
encontrar os lugares.
Enquanto ele atravessava a sala de espera, Bettina observava-o. No era 
muito alto, mas bem proporcionado.
" uma pessoa fora do comum", pensou ela. "Bem diferente dos homens que 
conheci."
Lembrou-se dos amigos de seu pai: sempre joviais, rindo e, em geral, com 
um cigarro ou um copo na mo. A aparncia frvola e descompromissada, sua 
nica preocupao consistia em organizar programas.
Como eram diferentes desse homem, ainda jovem e to preocupado com a 
melhoria da situao dos pobres!
"Que sorte a minha, t-lo encontrado naquele momento to angustiante!" E, 
com um suspiro, refletiu: "Tomara que ele viaje no mesmo trem para 
Londres, para podermos continuar conversando.
Em Park Lane, uma ventania quase arrancou o chapucoco do cavalheiro que
descia de uma carruagem diante de Alveston House. Ele o segurou com fora
at chegar  porta, onde o passou s mos de um criado de libr e luvas 
brancas.
- Temos novamente um dia horrvel de ventania, milorde - disse o criado, 
ajudando-o a tirar o capote.
- Tambm j est comeando a esfriar, e nem sequer estamos em outubro - 
comentou lorde Milthorpe.
-  verdade - respondeu respeitosamente o criado, que, passando  frente, 
abriu a pesada porta de mogno e anunciou:
- Alteza, lorde Milthorpe!
Sentado diante da lareira, o duque levantou os olhos, sorrindo, e 
exclamou:
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- Voc est atrasado, George! Charles e eu j estvamos pensando sobre o 
que poderia ter-lhe acontecido.
- O prncipe me reteve por mais tempo - replicou o recm-chegado, que, 
depois de apanhar um clice de sherry, sentou-se em uma confortvel 
poltrona, junto aos dois outros homens.
- Imaginamos logo que essa fosse a razo. E como vai Sua Alteza Real? - 
perguntou sir Charles Charlwood.
- Muito desconsolado e mesmo frustrado, pois pareceme que a rainha no 
lhe deu permisso para realizar mais um de seus sonhos.
- Ah, eu tinha certeza disso! - observou o duque de Alveston 
laconicamente.
com ar preocupado, lorde Milthorpe observou:
-  realmente desonroso, Varien!  um absurdo que a nica pessoa a nos 
representar na inaugurao do canal de Suez seja o nosso embaixador em
Constantinopla.
- Meu Deus! - exclamou sir Charles. - O prncipe estava certo de ir, 
principalmente depois de ter sido recebido com tanta pompa pelo quediva 
do Egito, no ano passado.
- Sim, mas o palcio de Buckingham decidiu pelo seu tradicional "no" - 
comentou Milthorpe.
- Ser realmente um escndalo! - exclamou sir Charles. - Acabei de ler no 
Times um artigo sobre os festejos. A imperatriz Eugenia da Frana vai ser 
a convidada de honra, e tambm estaro presentes o imperador da ustria e 
o prncipe herdeiro da Prssia! E que papel vai fazer a Inglaterra, com a 
presena apenas de um embaixador, em to importante evento?
- A rainha no quer que o prncipe atraia as atenes. Ela s deseja que 
ele fique sentado no palcio, aguardando suas ordens. E eu sou capaz de 
jurar que se o jornal publicar alguma notcia sobre o prncipe, ela  
capaz de rasg-la em pedacinhos, num acesso de clera.
- Mas quem pode culp-lo por s encontrar diverses fora do palcio? - 
perguntou sir Charles.
-  mesmo! - concordou lorde Milthorpe.
- Foi realmente uma deciso desastrosa, levando-se em
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conta que se trata de um evento histrico! - comentou o duque.
Ele era bem mais jovem que seus dois companheiros. Seu ar de 
responsabilidade, porm, envelhecia-o um pouco.
Bonito e simptico, sobressaa em qualquer lugar. Mas sua reputao, 
assim como a do prprio prncipe, era muito questionvel. Isso 
absolutamente no o incomodava. Muito rico, um dos mais poderosos 
proprietrios de terras do pas, possua um ttulo que brilhava na 
histria da Inglaterra, motivo pelo qual, justamente, ningum ousava se 
opor aos seus desejos.
Alm do mais, era amigo ntimo do herdeiro do trono. No se considerava, 
porm, um elemento do cl de Marlborough House, porque Alveston House 
rivalizava com a Casa Real, e at a superava.
O prprio prncipe se queixava de que as mais belas mulheres, os melhores 
criados, as diverses mais animadas, assim como as festas mais luxuosas 
eram as de Alveston House, e chegara mesmo a dizer:
- Ao diabo com tudo isso, Varien! No  s por voc poder realizar essas 
extravagncias, mas  porque tem sempre as ideias mais originais e de 
maior bom gosto.
- Isso me lisonjeia, sir! - retrucou o duque cortesmente, enquanto seus 
lbios se entreabriam num leve sorriso de ironia.
Muitas vezes percebia a distncia que o prncipe estabelecia, s porque 
estava aborrecido com as observaes que a rainha-me lhe fazia, 
restringindo sua espontaneidade.
- Voc sabe o que ns somos? - perguntara-lhe o prncipe, certa vez. - 
Somos os reis da sociedade, e, porque gosto muito de voc, no me importo 
de dividir meu trono.
O duque murmurou um agradecimento, enquanto cogitava que no haveria de 
querer compartilhar o trono com ningum.
Velhos companheiros da Corte invejavam-no porque lhe bastava levantar um 
dedo para que muitos viessem rastejando fazer-lhe a vontade. com sua 
fortuna, podia se dar ao luxo de satisfazer os mnimos caprichos e, ainda 
mais, socorrer os amigos em qualquer necessidade. Chegavam mesmo a dizer
que ele era mais real do que o prprio prncipe de Gales.
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Conseguira cativar at aqueles que s desejavam v-lo  distncia.
Havia, tambm, mulheres em sua vida. E muitas. Elas iam e vinham. Bastava 
entrar num salo de baile para que todos os coraes femininos se 
abalassem e dezenas de pares de olhos lhe dirigissem olhares 
convidativos.
Uma bela senhora de Marlborough House chegara a compar-lo ao deus Apolo.
Naquele momento, sir Charles estava dizendo:
- Ah, e por falar nisso, ao encontrar o gro-duque Mikhail da Rssia, h 
poucos meses, contou-me ele que tambm iria s solenidades da inaugurao 
do canal. , portanto, mais um representante de uma casa real que 
comparecer aos festejos.
- A verdade  que, como pas, estamos embirrando porque no tivemos fora 
suficiente para nos opormos. Palmerston era contra o plano, e Stratford 
de Redcliffe, desde o comeo, fez o possvel para impedir que De Lesseps 
realizasse sua obra.
- No se pode deixar de admirar tal homem - comentou sir Charles. - Levou 
anos e anos a lutar, antes de poder sequer comear a obra ou at mesmo 
lanar as fundaes.
- Bem, agora  um fato consumado, e a Inglaterra determinou no 
participar desse triunfo - completou lorde Milthorpe.
- Isso, porm, no quer dizer que todos os ingleses tenham de ficar em 
casa - disse pensativamente o duque, baixinho.
Surpresos, os dois amigos encararam-no interrogativamente.
- O que voc est sugerindo? - perguntou sir Charles.
- Simplesmente que aquilo que o prncipe no pode fazer, ns poderemos! - 
replicou o duque calmamente.
- Voc quer dizer... ir  inaugurao?
- Claro! Por que no?
-  mesmo! Por que no? - exclamou lorde Milthorpe, triunfante. - Santo
Deus, Varien, voc tem sempre o senso das coisas importantes! Claro que 
voc deve ir. Um duque
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 sempre um duque. Alm do mais, voc sempre se deu bem com a imperatriz.
- Varien sempre se d bem com as mulheres. Como em Paris, por exemplo. 
Cada vez que volta de l, deixa uma poro de coraes partidos.
- Mas o corao da imperatriz est intacto - contestou o duque. - Ela 
certamente ficar contente se agradarmos a De Lesseps, que se casou agora
com uma de suas primas. Por outro lado, apesar de eu achar Francisco Jos
um osso duro de roer, divirto-me com a prosa do gro-duque Mikhail.
- Ento voc vai mesmo? - perguntou lorde Milthorpe. - Juro que, se voc 
me deixar para trs, Varien, vou me suicidar!
-  claro que no vou deix-lo para trs, George. Enquanto tomamos o
lanche, vamos planejar tudo. H lugar de sobra para todos os amigos 
especiais a bordo do Jpiter.
- Ah, tinha me esquecido de que voc j recebeu seu novo iate a vapor! - 
replicou lorde Milthorpe. - E que melhor batismo para ele do que a viagem 
ao canal de Suez, nessa ocasio?
- O prncipe vai morrer de inveja - acrescentou sir Charles -, pois o 
quediva do Egito costuma oferecer festas fantsticas.
- Fantstica  realmente a palavra exata para uma festa das Mil e uma
Noites.
- Bem, isso j est assentado. Vocs tm apenas de me dizer a quem
desejam convidar, para que minha secretria possa fazer logo os convites.
O duque pronunciou essas palavras como se o assunto estivesse encerrado. 
Sir Charles, porm, aparteou:
- Acabo de me lembrar de uma coisa, Varien. Creio que no poderei 
acompanh-los.
- No vai conosco? Mas por que no? Prefere caar em vez de ir ao Egito? 
Alm do mais, poderemos at arranjar uma caada de gazelas para voc, o
que no deixa de ser muito agradvel! 
- Ora, voc sabe como eu gostaria de estar a bordo do Jpiter.
22
- Mas, ento, qual o motivo para no ir? - insistiu o duque.
- Minha filha chegar amanh da Frana, e ainda no providenciei nada
para ela. Consequentemente, no poderei deix-la sozinha em Londres.
- Sua filha?  mesmo, quase esqueci que voc tinha uma menina!
- Bettina cursava um colgio na Frana, e deveria ter voltado, em abril, 
para debutar. Como sua madrinha, lady Sheila Buxton, estava doente, 
disse-lhe para permanecer mais tempo l. Mas como lady Buxton morreu...
- Sim, naturalmente. Era uma senhora finssima. Eu gostava muito dela - 
interveio lorde Milthorpe.
- Ento, agora, voc est com uma jovem filha nas mos, Charles! - 
comentou o duque. - Mas isso no tem importncia. Ela tambm ir conosco. 
Porque, francamente, no poderemos ficar sem voc para nos entreter com 
sua conversa animada e tradicional bom humor.
com os olhos brilhantes de emoo, sir Charles ainda perguntou:
- Mas voc quer mesmo que ela v?
- Naturalmente! E sabe o que mais? vou escolher um jovem para lhe fazer 
companhia. Sim, e por que no o meu herdeiro presumvel?
- Voc se refere a Edgard? - perguntou Charles, espantado.
- Sim, a ele mesmo. Preciso arranjar-lhe uma boa companheira que o impea 
de pregar sermes infindveis aos meus amigos da Cmara dos Lordes. Vivem 
queixando-se de que ele os deixa arrepiados com suas ideias, e ainda 
consegue esvaziar seus bolsos.
Os dois cavalheiros a quem se dirigia preferiram no fazer comentrios.
O duque bem sabia que eles no desejavam criticar seu meio-irmo, e 
procuravam alguma coisa agradvel para dizer a seu respeito.
Sir Charles, porm, rompeu o silncio com um agradecimento.
23
-  muita bondade sua convidar Bettina, Varien. Espero que ela no venha 
a aborrecer ningum. Em criana, era sempre muito agradvel.
- Ora, se for um pouco parecida com o pai, ela ser a vida e a alma da 
festa - interveio lorde Milthorpe, cortesmente.
- Obrigado, George. Farei o possvel para diverti-los. O duque deu uma 
risada e logo acrescentou:
- E eu sei que voc far isso muito bem. Para ns todos, nenhuma festa  
completa sem voc.
Sir Charles ia agradecer, quando o criado anunciou:
- Alteza, lady Daisy Sheridan e a honorvel sra. Dimsdale! Duas senhoras 
lindssimas penetraram na sala, e quando
o duque se levantou para cumpriment-las, no passou despercebida a 
expresso do olhar que ele e lady Daisy trocaram, sugerindo algo especial 
entre os dois.
Ela lhe estendeu as duas mos enluvadas, que ele tomou e levou aos 
lbios.
- Perdoe-me o atraso. Kitty insistiu em comprar vrios chapus, que no 
poderemos pagar. Assim mesmo achamos que voc vai gostar deles.
- E ser que eu poderia agir de outra maneira? - perguntou o duque, 
sorrindo, com um leve tom de ironia na voz.
Bem sabia quem iria pagar aquela conta, e tambm que seria inconcebvel 
Daisy e Kitty virem para o lanche sem que ele tivesse de abrir a 
carteira.
Conhecia muito bem o jeitinho de Daisy. Casada com um jogador inveterado, 
no conseguia desistir da reputao de ser uma das mulheres mais bem-
vestidas de Londres. Isso s aconteceria enquanto os amantes no 
deixassem de pagar suas contas.
O duque no se importava de arcar com a despesa. Mas ficou aborrecido, 
achando que Daisy no precisava tornar aquilo to bvio.
Percebendo que Varien concordara com seu pedido, lady Daisy pousou a mo 
na dele, e em seguida deslizou como um cisne, atravs da sala, para 
cumprimentar os outros.
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Meu caro George, eu sabia que voc estaria aqui. 
to bom v-lo novamente!
Espero que no tenha levado Kitty a grandes profundidades da tentao. 
Acabei de comprar duas belas espingardas novas, e ainda no pude pag-
las.
- Imagine! - retorquiu graciosamente lady Daisy. Voc  to rico quanto 
Creso, e sua nica preocupao  no conseguir contar os seus tesouros!
- Isso, infelizmente, ningum pode afirmar a meu respeito - disse sir 
Charles, sorrindo.
-  verdade - replicou lady Daisy -, mas todos ns sabemos o quanto nos 
daria, se pudesse.
Emocionado, sir Charles comentou:
- Creio que foi uma das coisas mais lindas que ouvi nos ltimos tempos.
- Voc merece, Charles. Bem, mas digam-nos, o que os trs belos 
mosqueteiros estavam tramando quando chegamos?
- A resposta deveria ser bvia, mas no  - disse Charles, matreiramente.
- No estavam falando a nosso respeito? - perguntou Daisy. - Nunca vi 
algo mais ultrajante! Varien, voc est me traindo? No poderei aguentar 
isso!
- Ao contrrio - respondeu o duque calmamente. Estvamos pensando num 
plano que vai deix-la muito mais feliz do que os bailes da estao, as 
caadas aos faises e a lista das inumerveis festas que enche a sua 
agenda.
- O que est pretendendo dizer com todo esse mistrio?
- perguntou ela com arzinho sedutor.
- Que todos ns iremos assistir s festas da abertura do canal de Suez! - 
replicou o duque, aguardando as exclamaes de alegria que no tardaram a 
explodir.
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CAPITULO II

Quando o trem entrou na estao de Londres, Bettina debruou-se  janela
e logo avistou o pai. Seria, alis, impossvel no o distinguir mesmo em
meio  multido, sempre to elegante e atraente, na ltima moda. "Sempre 
to aprumado como diziam os amigos.
com o chapu-coco um pouco de lado, um cravo vermelho na lapela, apoiava-
se na bengala de cana-da-ndia, percorrendo com olhar perscrutador os
vages que se aproximavam.
Bettina abriu a porta do vago e pulou na plataforma. Correndo em sua 
direo, jogou os braos em volta de seu pescoo, eufrica.
- Papai! - exclamou. - Que bom voc estar aqui a minha espera!
- Por que demorou para vir? Estava ficando preocupado.
- Imaginei isso! - respondeu Bettina.
- Quando sua bagagem chegou sozinha, comecei a pensar em coisas terrveis 
- disse sir Charles, ainda aborrecido, mas j sorridente.
E continuou:
- Mas deixe-me admir-la. Como voc ficou bonita! Eu aguardava a 
menininha da qual me lembrava, e no algum to parecida com sua me, 
quando a conheci.
- Muito obrigada, papai! Mas, agora, gostaria de que agradecesse a este 
senhor. Ele foi muito gentil e amvel comigo. Mademoiselle, que vinha me 
acompanhando da Frana para a Inglaterra, teve um ataque de corao e 
morreu em Dover.
- Ento,  por isso que est to atrasada?
- Voc pode imaginar como foi horrvel! E no sei como teria me arranjado 
se no fosse lorde Edgard Veston.
Ela procurou a sua volta e viu o moo aproximar-se.
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- Aqui est ele! - exclamou a jovem, antes que o pai pudesse dizer alguma 
coisa. - Por favor, diga-lhe como est grato pelo que fez por mim!
A gratido de sir Charles, estampada em seu rosto, fez com que a 
fisionomia de lorde Edgard se descontrasse e ele relatasse as 
providncias tomadas em relao  mestra falecida.
- Foi um prazer poder ajudar sua filha. Ela se comportou de maneira 
magnfica diante de uma situao extremamente difcil e inesperada.
- Estou contente em ouvir isso - replicou sir Charles sorrindo. Virando-
se para a filha, acrescentou:
- Precisamos, agora, pegar sua bagagem que chegou no ltimo trem.
Bettina estendeu a mo para lorde Edgard.
- Mais uma vez, muito, muito obrigada. No sei o que faria sem a sua 
valiosa ajuda.
- Fico alegre por v-la na companhia de seu pai, e em perfeita segurana.
Dizendo isto, apertou-lhe a mo, cumprimentou sir Charles e afastou-se.
A jovem acompanhou-o, por um instante, com o olhar. Estava decepcionada,
pois esperava que ele exprimisse vontade de encontr-la novamente.
Mas logo, superando a mgoa, s pensou na alegria que sentia por rever o 
pai, aps tanto tempo.
Tinha tantas coisas para lhe contar e indagar que s ao chegar em casa, 
em Eaton Place, lembrou-se com tristeza de que sua me no estaria ali 
para receb-la.
com um aperto no corao, percebeu as mudanas ocorridas na casa. 
Faltavam-lhe aqueles toques femininos de lady Charlwood, que davam  casa 
um aspecto to bonito e acolhedor.
com um rpido olhar, percorreu o ambiente. Achou falta das costumeiras 
flores. As cortinas precisavam ser lavadas, e o forro do sof e das 
poltronas j estava gasto e pudo.
Mas seu pai, como sempre, tinha o aspecto de homem prspero e requintado. 
Suas roupas muito bem talhadas e na ltima moda, ditada pelo prncipe, 
deixavam-no elegantssimo.
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Sir Charles se casara bem jovem, e apesar de ter quarenta anos,
aparentava muito menos.
Surpresa com tal constatao, Bettina no pde deixar de comentar:
- Se eu cresci, papai, voc no envelheceu nem um pouco, alis, parece
at mais jovem!
- Voc me lisonjeia - protestou sir Charles, deixando perceber,
entretanto, certa satisfao.
- E o que tem feito ultimamente, papai? Tem ido a festas magnficas? E o
prncipe de Gales continua ainda sendo o seu melhor amigo?
Sir Charles riu daquela curiosidade espontnea.
- Quantas perguntas juntas! Sim, o prncipe ainda me honra com sua
amizade, e eu passo muito tempo em Marlborough House. Apesar de, talvez,
gostar mais da companhia do duque de Alveston.
- Parece que me lembro de ter ouvido voc falar nele. Sim,  claro. Mame
no aprovava muito essa companhia.
- , infelizmente, sua me no gostava de muitos dos meus amigos, mas 
Alveston  um bom camarada, apesar de sua reputao, de certa maneira, 
competir com a do prncipe.
Admirando a bonita figura da filha, ele prosseguiu:
- Na realidade, o duque  meio irmo do seu jovem admirador.
- Meu jovem admirador? - repetiu Bettina, atnita.
- Sim, lorde Edgard Veston.
- Ento ele  parente do duque? - perguntou ela, admirada. - E por que me 
disse que nunca tinha encontrado voc?
Sir Charles encheu um clice com sherry, sem oferecer  filha.
- O duque e seu meio irmo no se do muito bem. Apesar disso, ele
pretende convid-lo para uma viagem, da qual voc tambm participar
comigo. E o fato de voc j o ter conhecido, em circunstncias to
interessantes, ir facilitar bem as coisas.
- Que viagem? - perguntou Bettina, surpreendida. Calma e quase
dramaticamente, sir Charles contou-lhe:
- Voc foi convidada para participar da festa do duque em homenagem 
inaugurao do canal de Suez.
28
Bettina encarou-o, incrdula, quase sem poder articular uma palavra.
- Voc tem certeza disso, papai?
- Naturalmente! Quando contei que voc iria chegar da Frana, ele 
imediatamente estendeu o convite a voc.
- No posso acreditar nisso! Na Frana inteira no se falava em outra 
coisa. Vai ser um acontecimento histrico! At a imperatriz da Frana 
estar presente!
- E muitas outras pessoas tambm... como ns!
Ele tornou a sentar-se, e como Bettina estivesse em p na sua frente, 
examinava-a de alto a baixo, como se ela fosse um cavalo de corrida.
Finalmente exclamou:
- Voc ter exatamente trs dias para preparar suas roupas, como convm a 
uma dama elegante.
- Mas, papai!  impossvel! Eu no tenho nada, nada mesmo para vestir! 
Pensei que voc iria me mandar buscar, em abril, para o vero, e a eu 
faria algumas roupas novas. Mas quando voc disse que minha madrinha 
estava doente, pareceume um desperdcio fazer qualquer preparativo. 
Portanto, o que eu tenho ou est curto e apertado, ou gasto pelo uso.
- T, t, t... Eu j previa isso, e sabendo como so as mulheres, logo 
imaginei que sua primeira preocupao seria um enxoval novo.
- Um enxoval, no, papai - protestou Bettina. - Apenas alguns vestidos 
para a noite e outros para usar durante o dia.
- Vai ser uma correria, mas voc ter de comprar o que puder. As roupas 
de sua me esto l no quarto, mas esto muito velhas. A loja aonde ela 
costumava ir talvez possa ainda reformar algumas, especialmente se voc 
comprar uns vestidos novos l.
Os olhos de Bettina brilharam, mas ela perguntou com voz hesitante:
- Mas... poderemos fazer essas despesas agora, papai?
- No, no podemos, Bettina. E, para lhe ser franco, nomomento no 
disponho de um centavo sequer. S tenho dvidas. Que diabo!
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Depois de um profundo suspiro, Bettina concluiu:
Bem, papai, o melhor  eu no participar dessa festa do duque. Eu no
suportaria v-lo envergonhar-se de mim. Pondo-se de p, sir Charles 
esbravejou: Ura" no seja tola. Essa  a sua grande oportunidade! oce 
encontrar, nessa viagem com Alveston, os melhores partidos quejamais 
conhecer em todos os seus bailes junto a um bando de debutantes.
depois de um breve silncio, acrescentou:
Alem do mais, que melhor partido voc poderia encontrado que Edgard
Veston?
olhos arregalados, Bettina encarou o pai, espantada: Certamente voc no
est sugerindo isso, papai!
Por que no? Lorde Edgard no  um duque e provavelmente no ser o herdeiro
do seu meio irmo, mas ele goza de bom conceito, e voc, assim, entraria
para uma das grands famlias da aristocracia.
Desviando o olhar a moa atravessou a sala e, apoiando-se no encosto da
cadeira, preferida de sua me, disse em voz baixa:
- Eu no
pensava em me casar to rapidamente...
Yra voc j tem dezoito anos, e quanto antes se casar, melhor. Alm do
mais, para ser bem franco, eu no tenho condies de mant-la.
- Oh, papai! - disse a jovem tristemente.
Apesar de a frase ter sido dita quase em tom de murmrio, ele ouviu e
apressou-se a dizer:
- Oua, no  que eu no queira t-la comigo. Ns sempre fomos bons amigos,
mas, como voc sabe, eu sempre me mantive  custa do carteado.
Ultimamente, porm, as cartas parecem estar contra mim.
- Voce sabe como mame no gostava quando voc jogava alto.
- Mas  a nica coisa que posso fazer para sobreviver no meio em que
vivo. E, alm disso, eu gosto de jogar. Por outro lado...
- Bettina compreendeu que ele se referia aos fins de ms, quando no
havia dinheiro suficiente para os pagamentos. Os credores acoados
ficavam ento esperando para receber os salrios. J
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no tempo de sua me era assim, e ela olhava para ele com expresso
apreensiva, como que implorando uma soluo. Andando nervosamente de um
lado para outro, sir Charles
disse:
- A questo  essa, Bettina: eu levo uma vida formidvel. Recebo muitos 
convites como os do prncipe e os do duque, que me honram com sua 
amizade. Eles sempre dizem que uma
festa nunca  completa se eu no estiver presente.
Depois de uma pausa, continuou:
- Mas tudo isso custa muito dinheiro. Tenho de retribuir
essas amabilidades. E mesmo que tenha um teto, possa comer e beber e at 
me dar ao luxo de caar, preciso de roupas adequadas e um criado para 
cuidar de tudo. Tenho de manter esta casa para minhas estadas em Londres. 
No posso ficar fazendo economias.
- Compreendo bem, papai.
- Ento voc percebe que no estou querendo ser desumano quando digo
que, apesar de o desejar muito, no tenho meios de manter uma filha.
- Eu sei ser muito econmica, e no lhe custarei praticamente nada.
- E voc acha que eu vou permitir que voc fique em casa
feito uma escrava, em vez de tomar o lugar que lhe compete
na sociedade? Estou orgulhoso de voc, Bettina, principalmente
agora, que vi como voc cresceu e ficou bonita. Bem trajada,
voc vai fazer sucesso! E  isso que quero que voc faa!
- Mas como, papai? De que maneira vamos obter isso?
- Quando sua me morreu, tive de vender suas jias para pagar os
funerais, a conta do mdico etc.
Bettina ficou apreensiva. Sempre sonhara que o colar de prolas, os
brincos de brilhantes e o belssimo anel de sua me um dia seriam seus.
- No tive outra alternativa, minha filha, mas conservei uma pea... uma
estrela de diamantes que ela desejava deixar para voc.
- Ah, eu sempre adorei aquela estrela - exclamou Bettina. - Quando mame 
a usava nos cabelos, parecia uma rainha de contos de fada.
31
 - Vendi-a hoje de manh - disse ele abruptamente.
- Voc a vendeu, papai?
- Para que voc possa comprar as roupas necessrias s festas do duque.
Ela teve vontade de chorar e dizer que ele no tinha o direito de vender 
uma jia que a me deixara para ela. Mas, por am-lo muito, preferiu 
engolir as palavras e dizer simplesmente:
- Espero que fosse esse o desejo dela. Ela gostaria que voc se 
orgulhasse de mim.
A jovem percebeu que o pai ficara aliviado diante de suas palavras, pois 
temia, naturalmente, uma reao de revolta.
- No era bem isso o que eu desejava, mas lembre-se: voc precisa 
conquistar lorde Edgard.
No trem para Southampton, reservado pelo duque, Bettina pensava que, para 
agradar a lorde Edgard, deveria estar usando uma roupa bem diferente.
As alunas do elegante colgio de madame Vesarie tinham aprendido muita 
coisa sobre moda, e ela era bastante inteligente para adapt-la ao seu
tipo. Por exemplo, a beleza dos seus cabelos claros, que, sob a luz
artificial, ficavam quase brancos, no combinava com as cores vivas 
usadas pela maioria das moas e senhoras.
Elas abusavam de cores berrantes, como o escarlate, o azulpavo e o 
verde-esmeralda, e ainda enfeitavam os chapus com penas de avestruz.
Ao zunzum das suas conversas mesclava-se sempre o farfalhar das sedas e 
tafets das amplas saias em contnuo movimento.
Havia rendas nas enormes barras dos vestidos e nos decotes ao redor do
pescoo ou junto ao busto, combinando com o brilho das jias carssimas.
Todo esse conjunto transformava o vago de estar do trem especial do 
duque numa enorme gaiola de araras.
Em contraste com as das outras, a roupa de viagem de Bettina, em tom 
azul-miostis, era muito plida, mas formava a moldura perfeita para seus 
cabelos claros.
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As fitas do pequeno chapu, amarradas embaixo do queixo tornavam a pele 
de seu rosto mais acetinada e transparente.
Bettina no cabia em si de contentamento. Depois de passar tantos anos 
enfiada em uniformes e constrangida pela educao severa do colgio, o
fato de poder vestir roupas lindas e expressar livremente seus
pensamentos fazia-a sentir-se como uma borboleta emergindo da crislida.
Pela expresso do rosto do pai, sabia que estava exatamente como ele 
desejava, e, olhando-se ao espelho, viu refletida uma figura muito 
atraente.
Mesmo assim, um pouco nervosa, durante o caminho para a estao pegou a 
mo do pai e perguntou-lhe:
- Voc tem certeza de que estou bem assim? Precisa ajudar-me a no 
cometer nenhuma gafe. O duque deve ser exigente, e seus amigos da alta 
sociedade certamente vo me achar muito aborrecida.
- Eles no vo achar nada disso. Conscientize-se, porm, de que deve se 
concentrar em lorde Edgard. Ele ir sentir-se como peixe fora da gua, 
naquele ambiente.
- Por que ele no se d com o duque, seu irmo, se ele  to charmoso 
como voc diz?
- O velho duque casou-se pela segunda vez, em idade avanada, com uma 
senhora muito religiosa, dada a obras de caridade, mas inimiga tenaz da
vida social que o marido adorava.
Bettina relacionou tal detalhe com a tendncia de lorde Edgard de 
procurar ajudar os pobres.
- Era de beleza razovel e vinha de boa famlia. Quando, porm, o velho 
duque morreu, ela se recusou a ter qualquer contato com o enteado, e foi 
viver com seu filho Edgard em outra propriedade dos Alveston.
- Parece que lorde Edgard no teve muitas oportunidades de se divertir - 
observou Bettina.
- Ele no gosta de diverses, e procura demonstrar isso a todo instante - 
contestou o pai.
Logo, temendo que suas palavras pudessem revelar um aspecto negativo do 
jovem lorde, acrescentou rapidamente:
- De qualquer maneira, ele parece ser um homem bom
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e muito srio, o que naturalmente  importante para um jovem ambicioso em
nossos dias.
- Ambicioso em que sentido, papai?
- Em deixar uma marca mais significativa que a de lorde Shaftesbury, 
lutando pelos abandonados, tomando a si causas de injustiados e outras
coisas dessa espcie.
- Ora, mas isso parece-me muito louvvel! - disse Bettina.
- ,  mesmo, mas  melhor voc mesma perguntar-lhe o que mais lhe 
interessa. Isso  sempre um bom comeo para conquistar o corao de um 
homem.
Quando os dois jovens se encontraram no trem, Bettina percebeu uma 
expresso de prazer e assentimento no rosto de lorde Edgard.
- Que prazer encontr-la novamente, srta. Charlwood! disse ele.
- Felizmente em circunstncias bem diferentes, milorde
- replicou a jovem, fazendo uma leve inclinao.
- Realmente, bem diferentes! - concordou ele, cavalheirescamente.
Em seguida, porm, ela captou uma expresso de desaprovao em seu rosto, 
quando ele lanou um olhar  sua volta.
Depois, j acomodados em confortveis poltronas, enquanto os criados de 
Alveston House serviam bebidas e deliciosos quitutes, ela se recordou da 
recomendao do pai e disse:
- Eu desejava muito encontr-lo novamente, para lhe pedir que me contasse 
sobre o seu trabalho, do qual o senhor me falou quando estvamos em 
Dover.
- Trouxe alguns panfletos que j foram publicados e outros ainda em vias 
de redao. Como vamos ter bastante tempo no mar, gostaria de poder 
mostr-los  senhorita.
- Vai ser muito agradvel! - exclamou Bettina.
Ao mesmo tempo, no podia deixar de imaginar como os outros membros da 
festa iriam passar o tempo. Desejava apenas que ningum, nem mesmo lorde 
Edgard, a privasse de admirar os lindos cenrios e o delicioso sol 
mediterrneo.
Era como se um sonho muito especial tivesse se transformado em realidade: 
participar dos festejos da inaugurao do canal
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de Suez era uma fantasia maravilhosa, que todos almejavam na Frana h muito
tempo!
Madame de Vesarie era ntima da famlia de Lesseps, por isso as alunas do 
colgio tinham recebido informaes minuciosas sobre as dificuldades 
enfrentadas por Ferdinand de Lesseps e sua luta desesperada para 
conseguir a construo do canal atravs do istmo, de forma a ligar os 
dois grandes mares.
Aprenderam que, na realidade, Napoleo Bonaparte fora o primeiro a se 
interessar seriamente por essa transformao geogrfica.
A prpria madame de Vesarie contou s suas alunas como, em 1798, estando 
o general perto de Suez, numa rea de solo pantanoso, descobriu o que h 
tanto tempo procurava - o leito do antigo canal dos faras, que no era 
usado j h alguns milnios. Isso se passou no vero em que Napoleo
invadiu e ocupou o Egito, apossando-se do Cairo.
- Para destruir a Inglaterra, temos de possuir o Egito declarara ele um
dia.
O Egito comandava o Mediterrneo e a passagem para a ndia, por isso 
Napoleo planejou derrotar o inimigo no em sua casa, mas atravs da 
invaso do imprio oriental.
Depois da batalha de Waterloo, a ideia da abertura do canal cara no 
esquecimento, at que Ferdinand de Lesseps, conscientizando-se de sua 
viabilidade, decidiu tornar-se Vasco da Gama de Suez, conforme dissera
madame de Vesarie dramaticamente.
As jovens tinham ouvido embevecidas as narrativas das enormes 
dificuldades enfrentadas. A primeira delas fora convencer Mohammed Ali, o 
quediva do Egito, daquela ideia. Entretanto, ele morreu pouco depois, 
sendo sucedido por seu filho, o prncipe Moharnmed Said, que era amigo de
Lesseps.
Curiosa, Bettina perguntou de onde provinha essa amizade.
Ento madame contou a seguinte histria: quando adolescente, o prncipe, 
por algum distrbio glandular, fora muito gordo. Por esse motivo, seu pai 
o submetia a exaustivos exerccios fsicos e mandava controlar 
severamente sua alimentao.
Como Mohammed Said conhecia De Lesseps h muito tempo, ia visit-lo todos 
os dias no consulado francs. A, nos aposentos
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particulares deste, ele se atirava cansado e faminto a um div e
os criados traziam-lhe pastelarias e guloseimas francesas para saciar sua
fome.
A bondade de Ferdinand de Lesseps fez com que o jovem prncipe se 
apegasse a ele. Alm do mais, De Lesseps o levava em suas cavalgadas pelo 
deserto e lhe ensinava esgrima e outras atividades culturais francesas.
Coube ao prncipe Said, como vice-rei do Egito, apoiar financeiramente o 
amigo quando este, em 1854, iniciou sua grande campanha para reunir as 
guas do Mediterrneo s do mar Vermelho.
- Mas por que De Lesseps encontrou tanta oposio? perguntara Bettina a 
madame de Vesarie, quando esta fez uma pausa.
- Os ingleses eram contra o plano, e fizeram o possvel para impedi-lo de 
sair vitorioso - respondeu madame, acrescentando asperamente: - Lorde 
Palmerston, o primeiro ministro britnico, temia que a abertura de uma 
nova rota para o Oriente causasse o rompimento das relaes comerciais e 
martimas da Gr-Bretanha. E ainda dissera que, na realidade, era a maior 
trapaa financeira imposta  credibilidade e estupidez do povo da Gr-
Bretanha.
- Mas que falta de viso! - exclamara Bettina.
- Os ingleses frequentemente a tm - acrescentou madame, mordazmente.
- Mas se a Inglaterra se ops, como  que ele conseguiu iniciar as obras? 
- perguntou outra aluna.
Madame sorriu:
- Monsieur De Lesseps lembrou-se de que certa vez Mohammed Ali, pai do 
prncipe Said, dissera-lhe: "Lembre-se sempre disso, meu jovem amigo: se 
tiver de realizar qualquer projeto importante, conte apenas consigo 
mesmo".
- E ele fez isso? - perguntou uma vozinha l de trs.
- At para arranjar o dinheiro para comear a dragar a areia ele confiou 
apenas em si prprio. Iniciou uma subscrio pblica de acionistas para a 
Companhia do canal e, apenas do povo francs, recebeu mais de cem milhes 
de francos, ou seja, quatro milhes de libras!
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As alunas todas aplaudiram. Uma francesinha muito bonita disse:
O povo francs acreditava nele!
- Naturalmente - respondeu madame. - Ns sempre confiamos e acreditamos 
em nossos homens, especialmente quando tm razo.
A alegria, porm, foi interrompida por um pequeno suspiro da mestra.
- Infelizmente s aquele dinheiro no foi suficiente, mas quando o senhor 
De Lesseps percebeu isso, ele prprio j havia, na manh de 25 de abril 
de 1859, enfiado a primeira p na areia da baa de Pelusium.
- E o que aconteceu, ento? - perguntara Bettina, curiosa.
- Ele passou a p para os engenheiros de sua equipe e para cada um dos 
cem operrios que ali se encontravam. Cada um retirou uma p cheia de 
areia e, calmamente e sem muito drama, tinham dado incio ao canal de
Suez!
Madame repetira essa histria umas cem vezes. Como o resto da nao 
francesa, tambm Bettina acompanhou com o maior interesse todas as 
dificuldades, problemas e colapsos que ocorreram durante a obra magistral 
de um idealista francs.
Houve muitos reveses. Em dado momento tiveram de interromper a escavao, 
e os operrios egpcios foram despedidos. Mas, finalmente, com o auxlio
de Napoleo III, imperador da Frana, a dragagem recomeou de forma
totalmente nova.
Aqueles laboriosos dias de picaretas e ps tinham terminado, e durante os 
quatro anos seguintes, profissionais com maquinaria pesada chegaram para 
completar o trabalho.
O prncipe Mohammed Said morreu, e seu trono foi ocupado por seu 
sobrinho, Ismail Pasha, que se tornara quediva.
No dia 15 de agosto daquele ano, Bettina lera as manchetes dos jornais 
franceses, anunciando que o mar Vermelho jorrara ao longo do canal de 
Suez e atravs dos lagos salobros para misturar-se s guas do 
Mediterrneo.
Os dois mares tinham se unido afinal, e o Oriente e o Ocidente formavam 
um mundo s.
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A jovem ficara to interessada e envolvida em todo aquele projeto, que 
achava inevitvel ela tambm, por algum passe mgico, assistir  
cerimnia da inaugurao do canal de Suez.
Estava to excitada com esses pensamentos, que foi muito difcil para 
ela, naquela primeira tarde, ouvir a tagarelice das outras senhoras, ou 
mesmo dar a devida ateno s graves palavras de lorde Edgard.
Alm do maravilhoso fato de estar viajando para o Egito, sabia tambm que 
estava penetrando num novo mundo: um verdadeiro pas das maravilhas, 
depois de toda aquela austeridade do colgio.
Jamais sonhara com tanto luxo e conforto, tudo to diferente do que ela 
vira at ento.
Bettina ficara fascinada de ver o pai rodeado pelos amigos, que riam das 
suas brincadeiras, batiam-lhe nas costas, aplaudindo e cumprimentando-o.
Agora, compreendia por que sir Charles no podia renunciar a esse mundo.
Entendia, tambm, muitas coisas que tinham sido difceis de aceitar, no 
passado. A primeira delas era a insistncia da me para que seu pai 
sempre andasse muito bem vestido. Para isso, ela economizava nas despesas 
da casa e at nas pessoais. Refletindo sobre tudo aquilo, era quase como 
se o pai estivesse num palco e, mantendo a ateno do pblico, pudesse 
faz-lo chorar ou rir ao seu bel-prazer.
"No  de espantar que todos o queiram como hspede", cogitou Bettina, 
quando a tarde j ia terminando e sir Charles continuava sendo, 
inegavelmente, a vida e a alma da festa. A jovem pensou que o duque se 
juntaria a eles no jantar, servido em outro vago, por garons impecveis
em sua habilidade, apesar do movimento contnuo e dos solavancos.
Quanto ao cardpio, composto de variados e deliciosos pratos, atestava
que o chefe da cozinha devia ser um gnio para fazer uma refeio
daquelas nas condies limitadas de um trem. O duque, sem dvida alguma
querendo tudo em grande estilo, caprichara ao mximo: havia candelabros 
de prata na mesa, meia dzia de vinhos diversos, alm do champanhe e de 
um arranjo de flores para cada senhora presente.
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Eram as primeiras orqudeas que Bettina ganhava em sua vida, e por serem 
brancas e em forma de estrela, imaginou que teriam sido escolhidas 
especialmente para ela. Logo achou que era uma concluso precipitada: 
estava ficando muito imaginativa. Seria mesmo apenas uma coincidncia ter 
recebido flores to adequadas, enquanto lady Daisy Sheridan ganhara 
cadeias cor de malva, que combinavam com seu vestido adornado de 
ametistas?
- Onde est Varien? - perguntou uma das convidadas a lady Daisy. - 
Certamente vai jantar conosco hoje, no  mesmo? Ou a senhora proibiu-lhe 
isso, para guard-lo inteiramente para si?
Pelo tom de despeito da pergunta, Bettina percebeu que devia haver algum 
relacionamento especial entre lady Daisy e o duque.
- Varien est cansado e quer ficar sozinho esta noite replicou a dama.
- Sozinho? - perguntou a outra, espantada. - Mas isso tambm se estende a 
voc, minha querida?
Vrias pessoas riram, mas lady Daisy permaneceu imperturbvel.
- Todos ns deveramos dormir cedo, pois a-manh teremos de enfrentar 
guas tempestuosas. Alm do mais, eu detesto o mar!
Depois do jantar, entretanto, quando Bettina se retirou para o vago-
dormitrio, os cavalheiros no pareciam ter qualquer inteno de seguir o 
conselho da linda senhora.
Sir Charles sentou-se com um grupo para jogar baralho nas mesas que 
tinham sido arrumadas no vago de estar, enquanto jantavam.
O trem fora levado para um desvio, onde permaneceria durante a noite, 
para que os viajantes pudessem dormir sossegados.
Olhando para a filha, de p ao seu lado, sir Charles disse:
- Voc no vai ficar a olhando meu jogo, no  mesmo? Isso me deixaria 
nervoso.
Do outro lado da mesa, um dos cavalheiros comentou com ironia:
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- Quem diria, Charlie? Desde quando uma mulher bonita o deixa nervoso?
- com minha filha  diferente - replicou ele.
- Pois eu levanto um brinde a essa diferena, porque ela  muito bonita. 
O tipo de filha que cabe a voc, Charles - comentou outro senhor.
Sorrindo, orgulhoso, o pai acrescentou:
- Tambm acho. Voc j vai se deitar, querida? Dando-lhe um beijo na face 
e fazendo uma pequena reverncia, a moa afastou-se.
Uma criada muito simptica acompanhou-a ao vago onde se situavam as 
cabines.
Eram mobiliadas de maneira rebuscada, com camas confortveis, inmeros 
espelhos e bacias de loua com molduras de couro do Marrocos.
Cada cabina parecia uma casinha de boneca e, deitando-se, a jovem comeou 
a considerar como tudo aquilo era excitante. Lembrou-se de que nem se 
despedira de lorde Edgard, porque ele se sentara numa poltrona, num canto 
do vago, lendo. "Porque ser que ele no se junta aos outros?", pensou 
ela. Durante o jantar sentara-se ao seu lado, mas depois de trocarem 
algumas palavras, a jovem no pudera deixar de prestar ateno ao que os 
outros diziam, fazendo brincadeiras nas quais se destacava especialmente 
seu pai.
Edgard permanecera calado, sem fazer o mnimo esforo para ser, pelo 
menos, agradvel.
Diante de sua atitude, Bettina conclura: "Ele gosta de se isolar".
Bettina acordou cedo, quando o trem se ps em movimento para seguir 
viagem para Southampton.
Arredou as pequenas cortinas e viu que l fora ainda estava escuro. 
Virou-se para o outro lado, mas no conseguiu ficar muito tempo deitada. 
Aprontou-se e, vendo as lindas orqudeas que pusera num copo de gua, 
apanhou uma e colocou-a nos cabelos.
"Talvez jamais tenha oportunidade de participar de outro evento to
importante - disse ela sorrindo para a figura refletida no espelho.
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Dirigiu-se para o vago de estar e encontrou-o j novamente transformado, 
com poltronas e sofs de cetim, cheios de almofadas confortveis e 
aconchegantes. Havia tambm quadros e cortinas de veludo nas janelas. 
Presos nas paredes, para no tombarem, vasos com flores completavam a 
decorao.
"Como  bom ser rico para se ter tudo o que se quer", pensou Bettina, 
olhando para aquelas coisas feitas apenas para o prazer dos sentidos.
Num canto havia uma escrivaninha com todo o necessrio para se escrever. 
O tinteiro, a caneta com pena, o mata-borro, o porta-lpis, e ainda uma 
pasta de couro, que continha papel de carta e envelopes, tudo com o 
timbre de Alveston House.
"No esqueceram nenhum detalhe", pensou Bettina, que, ao ouvir passos 
atrs dela, voltou-se.
Por um momento encarou o homem que acabara de entrar. Achava seu prprio 
pai uma figura impressionante, mas o recm-chegado superava-o muito. Era 
bem alto, de ombros largos e com a fisionomia mais atraente que jamais 
vira em algum. Alguma coisa nele, porm, inspirava medo. Talvez fosse o 
ar compenetrado e de extrema autoridade. De qualquer maneira, havia uma 
aura a sua volta que atraa o olhar das pessoas.
Por um momento o cavalheiro tambm pareceu surpreso, mas disse em 
seguida:
- Voc deve ser Bettina Charlwood.
Meio assustada, a moa fez um leve cumprimento e respondeu:
- Sim... Alteza. -J no tinha dvidas sobre quem seria o recm-chegado.
- Ento deixe-me dar-lhe as boas-vindas  minha festa. Eu teria 
imediatamente adivinhado quem  voc, mesmo que no tivesse conhecido e 
admirado sua me.
- Muito obrigada - respondeu Bettina.
- Voc se levantou muito cedo. Jamais pensei encontrar algum dos meus 
convidados de p a esta hora.
- Eu estava muito excitada para continuar dormindo explicou Bettina. - E 
agora, admirava este lindo vago. Ontem, com tantas pessoas aqui, no 
pude v-lo bem.
-  realmente uma distrao - comentou o duque com
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um tom levemente seco e irnico, enquanto a jovem o olhava com
curiosidade.
- Parece-me que  a sua primeira festa desde que deixou o colgio - 
continuou ele.
- Gostaria de agradecer-lhe, Alteza, por ter-me convidado. Jamais sonhei 
ter o privilgio de participar da inaugurao do canal de Suez.
- E tal acontecimento interessava-a muito? - perguntou o duque.
- Eu morei na Frana, Alteza.
- Ah, sim! E os franceses, naturalmente, esto orgulhosos de sua 
realizao.
- Esto, de fato, orgulhosos e triunfantes, principalmente por poderem
provar que os ingleses estavam equivocados.
Rindo, o duque comentou:
-  mesmo, neste caso ns estvamos totalmente errados. Mas eu, 
pessoalmente, sempre acreditei na viabilidade do canal de Suez.
- E o senhor teve a coragem de dizer isso a lorde Palmerston? - perguntou 
Bettina.
O duque encarou-a fixamente, espantado por ela saber da oposio que o 
primeiro ministro fizera ao projeto.
- , eu fiz realmente um discurso na Cmara dos Lordes, alguns anos 
atrs, defendendo o projeto. S que ningum lhe prestou a mnima ateno.
Bettina no podia imaginar como seria possvel algum no dar ouvidos a 
uma pessoa to impressionante, mas era muito tmida para expressar essa
ideia.
O duque apanhou um jornal da mesa, e Bettina concluiu que ele viera ali 
para ler. No querendo incomod-lo, sentou-se  escrivaninha para escrever 
uma carta  nica pessoa a quem achava que pudesse interessar sua viagem
ao Egito: madame de Vesarie.
O duque sentara-se comodamente, atrs dela, numa confortvel poltrona, 
para ler o Times.
Como ele  bonito - pensou Bettina, concluindo que uma das razes que 
levavam lorde Edgard a no gostar de seu meio irmo fosse a manifesta
superioridade deste, no s em posio
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social como tambm em aparncia. Ela se ps a escrever, e quando
estava terminando, lorde Edgard entrou no vago. Bom-dia, Varien! - disse
ele em tom glacial.
- Bom-dia, Edgard! Espero que tenha dormido bem. Muito bem, obrigado. To
bem que me fez lembrar de
alguns assuntos que eu gostaria de conversar com voc, quando tivesse 
tempo.
- Se voc pretende me aborrecer com suas histrias de derreter coraes 
sobre a gentalha que dorme embaixo das pontes, pode poupar seu tempo - 
respondeu o duque rispidamente. - Eu pratico as minhas caridades, Edgard, 
como voc pratica as suas, e no tenho outro dinheiro para gastar.
- Como pode voc dizer uma coisa dessas? - perguntou o outro 
ironicamente. - O que voc est gastando nesta viagem para o Egito, ou 
mesmo o que ns comemos e bebemos ontem no jantar, daria para manter cem 
pessoas bem alimentadas durante um ano!
Num tom de voz cansado, o duque replicou:
- Eu espero, Edgard, que voc no fique pesando cada bocado de comida ou 
contando cada gota de vinho que eu ou meus convidados pem  boca. E no 
vou quase chegar  falncia para dar tudo que tenho aos pobres, como fez 
Shaftesbury!
- Voc me deixa sem graa - disse lorde Egard. - Envergonhado mesmo, por 
minha famlia fazer to pouco pelos menos afortunados.
- Pouco! - esbravejou o duque. - Se voc chama... Ele parou. - Oua, 
Edgard, no pretendo perder minha pacincia com voc, nem repetir, como 
j fiz tantas vezes, que a caridade no deve ser indiscriminada, nem o 
dinheiro gasto prodigamente.
A voz do duque fez-se acerada como a ponta de uma lana, ao concluir:
- Voc  meu hspede e vai se comportar como tal, tanto em relao a mim 
como aos meus convidados. No quero saber de esmolao, nem de sermes 
religiosos, entendeu-me bem?
Lorde Edgard, em resposta, saiu do vago, e Bettina, sem se
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voltar, ouviu o farfalhando jornal que o duque tornara a abrir.
com o corao batendo aceleradamente, ela escutara a breve discusso dos 
dois irmos. Fora muito embaraoso.
No colgio, presenciara brigas entre as colegas, mas jamais ouvira a 
discusso amarga e penetrante de dois homens, entre os quais reinava 
animosidade evidente.
Para alvio da jovem, seu pai entrou no vago.
- Bom-dia, Varien! - disse ele ao duque, e passando por Bettina, deu-lhe 
um beijo no rosto.
- Voc se levantou cedo, minha boneca. Isso prova que no dormiu de pura 
excitao.
- Tem razo, papai. Despertei na hora em que o trem se ps em movimento.
- Comigo aconteceu o mesmo - disse sir Charles. - S que eu fui me deitar 
tarde.
- Jogando outra vez, Charles? Voc sabe que no pode fazer isso.
- Ah, mas ontem  noite eu consegui. Ganhei uma bolada de Downshire.
- Ah, ele pode perder, com toda a certeza - disse o duque sorrindo. - S 
que no vai descansar enquanto no recuperar tudo.
- Essa possibilidade eu saberei superar - respondeu sir Charles, e os 
dois riram.
- Vamos tomar caf - sugeriu o duque. - Acho que estou precisando de um.
Pelo tom de sua voz, sir Charles percebeu que havia algo errado no ar.
- Alguma coisa o aborreceu? - perguntou.
- Apenas Edgard - replicou o duque.
- Oh, Edgard! - repetiu sir Charles, e lanando um olhar para a filha, 
acrescentou: - Um jovem que precisa da mo inspiradora de uma mulher 
compreensiva.
Bettina sabia que essa frase se referia a ela, mas no percebeu que, ao 
falar assim, seu pai piscara para o duque.
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CAPTULO III

com algum esforo, Bettina passou pelos grupos de hspedes, criados e
marinheiros espalhados pelo convs e foi refugiar-se num canto isolado.
No fora fcil consegui-lo, pois o Jpiter balanava muito, ao sabor de 
um mar encapelado.
As nuvens permitiam entrever aqui e ali pedaos de cu azul e, vez por 
outra, um fugidio raio de sol iluminava as ondas bravias. Apesar dos 
embates com a gua, o iate avanava galhardamente. A jovem no se cansava 
de admirar a segurana daquele barco to confortvel e luxuoso.
Fazia pouco tempo que o Jpiter fora entregue ao seu proprietrio. Era 
propulsionado por uma hlice a vapor, do tipo mais moderno, lanado pelas 
Linhas Cunard - Peninsular e Oriental. Esta ltima construra o Himalaia,
o maior barco desse tipo, que desenvolvia uma velocidade de quase 14 ns.
Quando o grupo de nobres sara de Southampton, o duque anunciara que
desejava ultrapassar esse recorde em pelo menos dois ou trs ns.
Animados, os hspedes passaram a fazer, diariamente, apostas sobre o
percurso que percorreriam durante o dia. Bettina percebeu logo que os
cavalheiros realmente apostariam qualquer coisa, incentivados apenas por
aquele desafio.
Quando atingiram o alto-mar, a jovem entrosou-se mais nas festividades,
pois at ento estivera fascinada, apreciando o lindo Jpiter. Soubera
que o prprio duque escolhera cada um dos detalhes da decorao, prova,
alis, do seu bom gosto. Ela se admirava do fato de um homem possuir
ideias to brilhantes sobre cores, espaos e disposio dos mveis. No
havia uma pea suprflua ou ornamentada demais, tanto no salo quanto nas
pequenas cabines. Em tudo havia luxo e beleza.
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A tapearia verde-musgo que forrava as paredes do vago de estar, a
branca e dourada do vago-restaurante e a ver melha de um pequeno vago
de fumar, quase exclusivo dos homens, tudo combinava harmoniosamente.
Havia ainda um pequeno escritrio, calmo e silencioso, com uma estante
cheia de livros, onde Bettina se deixava ficar, prazerosamente, por longo
tempo.
Ela adorava ler os livros do duque, que lhe abriam novos horizontes,
desconhecidos at ento. Alm da orientao em literatura inglesa e
francesa, madame de Vesarie preocupavase muito com os livros que suas
alunas liam. Somente naquela viagem a jovem entrara em contato com Balzac
e Gustave Flaubert, e mais alguns autores franceses e ingleses que lhe
eram desconhecidos.
Naquela manh, entretanto, apesar de levar um livro, Bettina pretendia
ficar meditando. Desejava que ningum reparasse nela, pois se achava uma
figura estranha dentro daquele casaco de l grossa com mais um
impermevel por cima. Vestira-os porque o vento no golfo de Biscaia era
forte e gelado, naquela altura do ano.
O impermevel amarelo, novo em folha, ainda dentro da embalagem, fora
conseguido por Rose, a empregada do duque que atendia Bettina. Ela no 
deixara que a jovem lady vestisse um j usado, talvez at por algum
marinheiro.
Havia doze convidados a bordo do Jpiter, e cada um deles trouxera seu 
criado, enquanto as senhoras eram atendidas pelas criadas trazidas pelo 
duque para o navio.
- Ei-la! A senhorita vai ficar engraada dentro dela disse a jovem Rose 
sorrindo.
- Ora,  melhor do que ficar molhada at os ossos!
- Seria mais aconselhvel no sair ao convs, com esse tempo. Nenhuma das 
senhoras deixou a cabine, desde que o temporal comeou - comentou a 
empregada.
- Todas esto enjoadas? - perguntou Bettina.
- Sim, mas no querem admitir isso, senhorita! Rindo, Bettina completou:
- Seria indigno e pouco romntico. Estou contente em ser uma boa
marinheira.
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Deveras! - comentou a outra, admirada. - A senho-ita foi a nica mulher
que tomou o caf da manh. Algumas criadas passaram a noite toda cuidando 
de suas patroas.
Bettina chegou a sentir remorsos de ter dormido to bem no meio daquele
temporal. E, naquele momento, desejava sair para tomar ar fresco, em vez
de ficar na cabine.
Por outro lado, sentia-se aliviada por no ter de presenciar o drama em
curso entre lady Daisy e lady Talham.
Durante o percurso no trem, observara a beleza de lady Daisy e de outras  
senhoras. Porm, quando vira lady Tatham, achara-a ainda mais bonita. 
Eram dois tipos diferentes: lady Daisy, com seus cabelos claros, olhos 
azuis e o corpo esbelto, era o prottipo da rosa inglesa que as revistas 
femininas cantavam numa fraseologia brilhante, e que constitua, 
provavelmente, o ideal da maioria dos homens.
Lady Tatham - Enid, para os amigos mais ntimos - tinha cabelos pretos
com reflexos azulados e olhos verdes ligeiramente amendoados. Estes
davam-lhe um ar misterioso, uma expresso enigmtica, que resultara no 
apelido de "Esfinge". Os lbios sensuais, bem vermelhos, contrastavam com 
a pele alva como uma camlia, fazendo parecer inspida a compleio rosa 
e branca de lady Daisy. Ambas disputavam as atenes do duque. Sentavam-
se a seu lado nas horas das refeies e esforavam-se, tenazmente, para 
diverti-lo o tempo todo.
Quando as duas, entretanto, estavam a ss, percebia-se no tom de voz 
delas um acento quase feroz.
Mais tarde, a jovem ficou sabendo que lady Tatham era casada, mas, como 
seu marido preferia morar no campo, ela esvoaava pelos sales da alta 
sociedade de Londres, seguida por um cortejo de admiradores.
As outras senhoras divertiam-se com aquela batalha, e pareciam estar 
satisfeitas com os cavalheiros que lhes serviram de par naquela viagem. A 
mais simptica delas era, sem dvida alguma, a honorvel sra. Dimsdale, 
desde o princpio carinhosa e amvel com ela.
- Aprecio muito seu pai, Bettina. Na verdade, todos ns gostamos muito de 
Charles Charlwood, e nos esforamos para amenizar sua solido, depois da 
morte de sua me.
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-  muita bondade sua! - exclamou Bettina.
- Quando voltarmos a Londres procurarei ajud-la, tambem. Tenho uma
sobrinha da sua idade, e sei que minha irm adorar lev-la a alguns
bailes neste inverno.
- Muito, muito obrigada.
Bettina teria se sentido um peixe fora d'gua naquele ambiente se a sra. 
Dirnsdale no a chamasse sempre para perto de si, quando a jovem se 
juntava s outras senhoras no salo, depois do jantar. Elas ficavam 
conversando e rindo, enquanto lady Daisy e lady Tatham atacavam-se 
mutuamente, atravs de um dilogo ferino.
Na vspera, quando o mar comeava a se encapelar, Bettina percebeu que as 
duas estavam no auge do nervosismo, e houve uma exploso temperamental.
Talvez com receio de tambm ficarem enjoados, os cavalheiros, naquela 
noite, tinham bebido um pouco alm da conta. Principalmente pelo andar 
inseguro de lorde Milthorpe, Bettina pde observar isso, no momento em 
que ele entrou no salo.
com exceo de seu pai, do duque e, naturalmente, de lorde Edgard Veston, 
os outros cavalheiros estavam corados e com o olhar amortecido.
Mas, por qualquer razo, lorde Ivan Walsham dirigiu-se a lady Daisy,
passou-lhe o brao pela cintura e disse:
- Voc est linda esta noite. Vamos apreciar o luar, e eu vou lhe fazer 
uma declarao de amor.
Lady Daisy escapou com agilidade de seus braos e respondeu, rindo:
- No ouse tocar em mim, Ivan! Voc sabe que eu perteno a Varien e ele a 
mim.
- Tem tanta certeza disso? - perguntou lady Tatham. Havia um tom de
sarcasmo em sua voz, e uma expresso
felina em seus olhos verdes.
Se o vinho no tivesse sido servido com tanta fartura, talvez lady
Daisy tivesse dado uma resposta em tom de gracejo. Mas, em vez disso, ela
perguntou desafiante:
- Posso saber o que quer dizer com isso?
- Quer mesmo que eu lhe conte... e em pblico? - perguntou
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por sua vez lady Tatham, enquanto seus olhos brilhavam
misteriosamente e ela curvava os lbios de modo provocante.
- Ou voc me conta o que quis dizer ou eu a obrigarei a isso - respondeu 
furiosamente lady Daisy, enquanto avanava em atitude ameaadora.
Naquele instante entrou o duque, junto com um grupo de cavalheiros. Lady 
Tatham correu em sua direo e, fingindo medo, agarrou-se a ele, dizendo:
- Socorro! Socorro, Varien! Livre-me dessa medusa, cheia de cobras nos 
cabelos!
Surpreso, sem saber do que se tratava, o duque apenas teve tempo de 
passar o brao pela cintura de lady Tatham, para evitar que ela casse 
com o balano do barco. No mesmo instante, lady Daisy deu uma bofetada no 
rosto de sua rival, caindo logo num choro histrico.
As outras senhoras agruparam-se  sua volta, enquanto, imperturbvel, o 
duque se sentava  mesa de jogo, convidando os cavalheiros a fazerem o 
mesmo.
As duas rivais retiraram-se para suas cabines, e Bettina, achando a 
situao extremamente embaraosa, tratou de imit-las.
Ela estava lendo na cama quando, cerca de uma hora depois, seu pai bateu 
na porta e entrou.
- Aconteceu alguma coisa, papai? - perguntou.
Ele sentou-se na beirada do leito, mas teve de segurar-se  cabeceira da 
cama, pois o Jpiter balanava violentamente.
- Achei que, depois da cena desagradvel desta noite, ns deveramos ter 
uma conversinha - disse sir Charles.
- Fiz mal em vir me deitar? - perguntou ela ansiosamente.
- No, de maneira alguma. Foi at muito sensato. Quanto quelas duas 
mulheres, tornam-se ridculas, fazendo tolices. E acho voc muito jovem 
para presenciar esse tipo de coisa.
E, baixando a voz, acrescentou:
- Sua me no aprovaria sua presena aqui, voc bem o sabe.
Sem saber o que dizer, Bettina permaneceu calada.
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- Meu amigo, o duque, como j lhe disse anteriormente, tem fama de levar
uma vida dissipada, e  conhecido pelo que os crticos chamam de
dissoluto.
- Mas ele  maravilhoso, papai!
- Muito elegante, muito rico, muito tudo o que atrai as mulheres, e essa
 toda a verdade.
- Quer dizer que as mulheres sempre se comportam assim quando esto com 
ele? - perguntou a moa com os olhos arregalados.
- Sim, frequentemente, suponho - respondeu sir Charles -, e no sei qual 
a razo para ele ter convidado Daisy e Enid para a mesma festa.
- Por qual delas ele-est apaixonado, papai?
- No  bem questo de estar apaixonado, Bettina. No creio que Varien 
jamais tenha se apaixonado.
- Ento... eu no compreendo...
- E nem  de se esperar que voc o compreenda. Fiz mal em ter trazido 
voc diretamente do colgio para um lugar assim. Tambm, no havia 
alternativa, se eu queria assistir  inaugurao do canal, como sempre o 
desejei.
- Voc sabe que, para mim, ser maravilhoso estar l disse Bettina.
O pai sorriu e acrescentou:
- Ningum mais nos teria convidado, filha.
- No, certamente ningum. Ento no devemos criticlo, no ? - disse a 
jovem, sorrindo tambm.
- Voc  uma menina muito ajuizada, Bettina. Estou orgulhoso de voc. 
Apesar de me sentir culpado por t-la trazido - disse ele, dando-lhe um 
tapinha na mo.
- Ah, no se preocupe, papai. Todos esto sendo muito gentis comigo, e 
eu estou gostando muito da viagem. Enquanto ningum me ofender, no tem
importncia. Eu no tenho nada com a vida deles.
- Mas no est certo - disse sir Charles com a fisionomia carregada. - 
Daisy deveria conter-se, pois Enid est fazendo o possvel para comprar 
uma briga.
- Ela est to apaixonada pelo duque?
- Sem dvida alguma, ela o quer como homem, mas
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muito mais como duque - respondeu sir Charles, falando francamente.
- Quer dizer que significaria um prmio para ela o duque se declarar seu 
amante? O que eu no compreendo, papai, ... - ela se interrompeu,
receosa.
- O qu?
- O que afinal pretendem, fazendo o duque interessarse por elas? Alm do 
mais, lady Daisy e lady Tatham so casadas e tm seus maridos. Ele no 
pode casar-se com nenhuma delas.
Como sir Charles se mantivesse em silncio durante alguns momentos, 
Bettina achou que ele estava escolhendo as palavras adequadas.
- Nada, pois Varien no pode se casar com nenhuma delas. Para ser franco, 
ele provavelmente no se casar com ningum. Pretende continuar 
solteiro, e diz que Edgard pode usar o ttulo como-bem quiser.
- Ele no deseja nem sequer um filho? - perguntou a jovem.
- No o suficiente para prejudicar sua liberdade. Alm do mais, ele j 
foi casado.
- Realmente? - perguntou Bettina. espantada. -Ningum jamais se referiu a 
tal fato. Conte-me como foi, papai.
- Varien casou-se aos vinte e um anos, muito antes de eu o conhecer bem. 
Lembro-me, porm, da forma como os jornais e revistas comentaram as 
grandes festividades de sua maioridade, junto com o casamento. Um jantar 
grandioso para os hspedes de Alveston House, com fogos de artifcio e 
tudo o mais.
- E o que aconteceu? - perguntou a moa, curiosa.
- A noiva de Alveston era to jovem quanto ele. Naturalmente, foi um 
casamento arranjado entre os pais. As duas propriedades progrediam 
maravilhosamente. Seria, portanto, uma grande vantagem que suas terras se 
unissem, atravs do casamento de seus filhos.
com o olhar fixo no rosto do pai, Bettina no perdia uma palavra.
- Entretanto, como a natureza humana no obedece aos
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desgnios dos homens, o noivo e a noiva no se entenderam.
- Mas ento, por que se casaram?
- Provavelmente pela presso dos pais. Alm do mais, a maioria das
unies nos meios aristocrticos est em grande parte fundamentada em
interesses financeiros - respondeu sir Charles.
- Continue, papai - acrescentou Bettina.
- Ele nunca menciona esse assunto, mas os rumores so de que estavam 
casados h quase um ano e sua mulher esperava um filho quando realizaram 
mais uma das muitas competies na manso. Ela saiu para a caada, apesar 
dos conselhos dele para que no fosse. Sofreu um acidente muito grave, e 
tanto ela quanto o beb morreram.
Bettina soltou uma exclamao de horror.
- Que coisa horrvel, papai!
- Esse acontecimento, naturalmente, forjou a opinio desfavorvel de 
Varien sobre casamento, e quando, anos mais tarde, recebeu o ttulo de 
duque, comeou a fazer exatamente o que desejava - ter muitos casos de 
amor -, o que os franceses costumam chamar de affaires de coeur, mas 
sempre com mulheres casadas.
- Mas... os maridos no se importam... no tm cimes?
- perguntou a jovem com voz hesitante.
Evidentemente, ela no sabia o que acontecia quando um homem tinha um 
affaire de coeur.
Lembrava-se ainda de como as jovens francesas tinham ficado excitadas 
quando os jornais deram a notcia de que o prncipe de Gales tivera um 
caso com a atriz Hortense Schneider.
As meninas do colgio voltaram das frias cheias de novidades, com os 
mexericos sobre esse caso do prncipe. Mais tarde, tiveram novo motivo 
para comentrios sobre ele e a princesa de Sagan.
Quando o prncipe viajava para o exterior, ficava hospedado no Chteau 
Sagan, pois vinha sempre s, enquanto a princesa Alexandra visitava seus 
pais em Copenhague.
As estudantes francesas no desejavam ser maldosas, quando comentavam os 
casos amorosos do prncipe de Gales. Na
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realidade, era justamente o que elas admiravam nele. E Bettina, por ser
inglesa e por seu pai gozar da amizade do prncipe, chegava a ser 
invejada pelas outras alunas do colgio. De certa maneira, o brilho e o 
charme do prncipe pareciam refletir-se nela.
Por isso, no se surpreendia de o duque tambm ter seus casos amorosos. 
S que o comportamento daquelas duas mulheres desejadas por ele as
tornava um tanto vulgares.
Sendo o duque um homem to charmoso e refinado, as mulheres favorecidas
por sua preferncia deveriam possuir o mesmo nvel dele.
Percebendo que o pai observava, preocupado, sua reao, Bettina tomou a
mo dele entre as suas e disse, entusiasmada:
- No precisa se incomodar comigo, papai. Eu estou to feliz em estar
aqui na sua companhia, e com a perspectiva de conhecer o Egito, que nada 
mais importa, absolutamente!
Sir Charles deu um profundo suspiro de alvio. E, lembrando-se de um 
assunto que ficara esquecido, perguntou:
- Como vai seu relacionamento com Edgard? - Ele j leu dois de seus 
panfletos para mim.
- Encoraje-o, minha filha, descubra quais so seus planos para o futuro. 
Voc poderia ajud-lo, Bettina. E, para ser bem franco, acho que ele est 
precisando de muita ajuda.
- Mas ele  demasiado srio, papai. Alm do mais, parece que no aprecia 
o duque.
- Voc deve persuadi-lo a aceitar as coisas de maneira mais real... Mas,
agora, eu tenho de voltar para o salo.
- Vocs continuam jogando cartas, papai?
- Sim, Walsham estava embaralhando-as, e eu aproveitei para vir conversar
com voc.
- E eles sentem a sua falta - acrescentou Bettina sorrindo. - Todos 
gostam de voc, papai. Voc no briga com ningum.
-  um luxo ao qual no me posso dar - respondeu sir Charles em tom de 
brincadeira.
Os dois deram uma risada gostosa, e o pai inclinou-se para beijar-lhe o 
rosto.
- Boa-noite, Bettina. Voc  muito bonita, e se Varien
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continuar mantendo seu voto de solteiro, ainda verei voc transformada 
em duquesa.
Bettina sorriu e ficou vendo o pai fechar cuidadosamente a porta. Ouviu 
seus passos no corredor, afastando-se, enquanto ela continuava sentada na 
cama, refletindo sobre o desastroso casamento do duque.
com o vento forte batendo no rosto, caminhou ao longo do convs, 
lembrando-se da ltima conversa com lorde Edgard e do interesse que ele 
demonstrava pelos menos favorecidos.
Quando ele terminara a leitura de um dos panfletos, ela no pde deixar 
de perguntar:
- O senhor sabe se alguma coisa foi feita em benefcio deles?
- Muito pouco. O governo no est interessado em gastar dinheiro com 
criaturas imersas na misria.
- E por que o senhor no vai ao Parlamento? Antes de responder, lorde 
Edgard tomou alento:
- Espero um dia chegar  Cmara dos Lordes!
com isso, queria dizer que esperava um dia herdar o ttulo de seu meio 
irmo, como duque de Alveston. O seu prprio ttulo era apenas 
honorfico, e no lhe dava direito de ser eleito pelos lordes. Apenas 
podia ser eleito membro da Cmara dos Comuns.
Raciocinando, Bettina chegou  concluso de que, havendo apenas uma 
diferena de onze ou doze anos entre os irmos, lorde Edgard no teria 
muita chance de herdar o ttulo de seu meio irmo com idade suficiente 
para depois levar uma vida poltica ativa.
Como ela era, porm, muito acanhada para continuar fazendo perguntas, 
limitou-se a ouvir a leitura das notas que ele escrevia para um outro 
panfleto. Este versava sobre a remoo de favelas e ia ser distribudo 
entre os membros do Parlamento e a todos os homens ricos que pudessem 
ajudlo nas obras de caridade.
No fundo, ela achava que tais opsculos estavam escritos em linguagem 
ditatorial e opressiva, e, por isso, justamente, mais afastariam do que 
granjeariam simpatias para aquela causa.
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Pensou em sugerir um tom mais conciliatrio que, na realidade, atrasse 
os doadores dos quais tanto precisava.
Mas no tinha coragem de fazer sugestes.
Andando com cuidado, devido ao balano do barco, ela acomodou-se perto da 
proa, sem ligar para os respingos das ondas agitadas. Olhando para aquele 
mar bravio e o cu nublado, por entre cujas nuvens o sol enviava alguns 
raios tmidos, lembrou-se dos quadros de Turner. Experimentava 
prazerosamente, no fundo da alma, a sensao de liberdade que o mar 
aberto lhe transmitia.
Durante os anos de colgio, sentira-se presa, pois o pai no lhe 
permitira voltar para casa nos perodos de frias. Passaraos s vezes na 
casa de colegas francesas que a convidavam.
com isso, ficara conhecendo bem o modo de viver do povo francs, assim 
como seus museus, peras e galerias de arte.
As meninas francesas tinham uma vida muito familiar. Sempre acompanhadas 
pelos mais velhos, faziam Bettina sentir profundamente a ausncia da me 
e do pai. Mergulhada nessas recordaes, no percebeu que algum se 
aproximara.
- Ah! Ento  aqui que veio se esconder? Eu a vi cambaleando pelo convs, 
e no pude acreditar que alguma das minhas convidadas fosse to corajosa 
para se expor a esse tempo, aqui fora.
Surpresa, ela se voltou e viu o duque atrs dela. com o impermevel e o 
bon amarelo, ainda ficava mais alto e imponente.
Sem muita cerimnia, ele sentou-se ao lado dela naquele banquinho que era 
s para uma pessoa. Ela tirara a boina, e seus cabelos esvoaavam, 
soltos, brincando ao vento.
com as faces coradas pelo frio e os cabelos esvoaantes, mais parecia uma 
ondina.
- Mas por que veio para c?
- Eu gosto de admirar o mar.  to majestoso!
- No h dvida de que  uma boa navegante! Mas  bom tomar cuidado com o 
convs molhado, porque num desses balanos voc pode ser atirada  gua.
- Ah, mas no antes de eu ver a inaugurao do canal
- exclamou a jovem sorrindo.
Ele riu da sua espontaneidade e comentou:
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- Tem certeza de que no se importar com o que possa vir a suceder
depois?
- Eu... estou tentando deixar que as coisas aconteam normalmente, a seu 
tempo.
- Deixar que aconteam? - perguntou o duque intrigado.
- No h nada que eu possa fazer - respondeu a jovem com leve tom de 
desalento.
Percebendo isso, ele insistiu:
- Voc est mesmo se divertindo?
- Mais do que em qualquer outra fase da minha vida! Seu iate  
maravilhoso, e h tanta coisa para se ver e admirar!
- Mas, agora, no que estava pensando?
Surpresa pelo seu interesse e vendo que ele aguardava a resposta, a jovem 
exclamou:
- No arco-ris que Ferdinand de Lesseps viu aparecer no dia mais feliz de 
sua vida.
- No estou lembrado dessa histria - retorquiu o duque. - Conte-me como 
foi.
- Isso aconteceu quando ele voltou ao Egto, vinte anos depois do incio 
das obras do canal. Seu amigo, o prncipe Said, tornara-se vice-rei, e 
convidou-o para ser seu hspede.
O duque acenou a cabea, como se estivesse se lembrando do fato, e a moa 
continuou:
- Foi em 15 de novembro de 1854 que o senhor De Lesseps decidiu abordar o 
assunto do canal de Suez com o vice-rei. Eles estavam num acampamento, 
fora de Alexandria, e s cinco horas da manh Lesseps saiu da sua tenda.
Apesar de o sol estar nascendo no horizonte, umas nuvens deixavam cair um 
pouco de chuva. Foi nesse instante que se formou um lindo arco-ris de 
leste para oeste.
- E o que aconteceu? - perguntou o duque interessado.
- A apario do arco-ris foi para De Lesseps um sinal de que aquele 
seria seu dia mais feliz. Ele se vestiu e, montando um pnei rabe, 
galopou atravs do acampamento, em direo  tenda do vice-rei.
Os olhos da jovem brilhavam enquanto ela contava o que ocorrera.
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- Diante da tenda real fora erguida uma barreira. Ferdinand de Lesseps, 
que  um timo cavaleiro, saltou por cima dela com a maior facilidade. O
vice-rei e alguns generais que estavam ali fora vibraram e aplaudiram
alegremente.
- , os rabes apreciam muito os bons cavaleiros - observou o duque.
- Creio que ele sabia disso - comentou Bettina. - E quando ele entrou na
tenda do vice-rei, seu corao estava confiante.
-  uma histria bem interessante - comentou o duque com um leve tom de
ironia. - E voc, acredita em sinais e pressgios?
- Sim, naturalmente! J houve tantos no decorrer da histria do mundo! 
Como, por exemplo, a Estrela de Belm.
O duque sorriu, mas o ar de ironia desaparecera de seus olhos.
- Outro dia, refletindo, conclu que esses "sinais ou pressgios", como 
costumamos cham-los, seriam sempre alguma espcie de luz: uma estrela, 
um arco-ris, um chumao incandescente e mesmo a luminosidade que emana 
das prprias pessoas so uma fora imortalizada no cristianismo, pelo que 
costumamos chamar de "halo".
Houve um momento de silncio, e ento o duque disse:
- Talvez seja essa a luz que todos ns buscamos.
Em seguida, sem dizer mais nada, levantou-se e afastou-se, pensativo.
S depois de ele ter desaparecido da sua vista  que Bettina se
conscientizou de que fora uma conversa muito estranha, especialmente
sendo o interlocutor o seu nobre anfitrio.
Talvez o tivesse aborrecido, mas no fundo no era essa a impresso que 
tinha. De qualquer maneira, ele a tratara de forma muito diferente da que 
usava com as outras senhoras.
Bettina sabia tambm que, se em vez dela, o duque tivesse estado com lady 
Daisy ou lady Talham, certamente as moas teriam aproveitado a ocasio 
para lisonje-lo e flertar com ele, lanando-lhe olhares sensuais e
convidativos, enfim, comportando-se de certa maneira que ela denominava
intimamente de "seduo deliberada".
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"Eu no sei agir dessa maneira, e s disse o que estava pensando. Ser 
que fiz mal? "
Sentiu-se indecisa e insegura, mas era-lhe impossvel fingir, simular 
algo que no fosse real. Ela no sabia ser polida e sofisticada como lady
Daisy, e, menos ainda, provocante como lady Tatham.
Mas sua me tambm nunca se comportara assim. Fora sempre carinhosa, 
gentil e encantadora, e quando dispunham de meios adequados, uma perfeita 
anfitri.
A me jamais simularia uma atitude que no estivesse de acordo com o seu 
modo de pensar, apenas para atrair a ateno de algum homem.
"Mame certamente no gostaria delas", murmurou a jovem com toda a 
convico, concluindo que agira da melhor forma.
Entrando na sala, percebeu que era a nica senhora presente.
- O vento est amainando, e o capito contou-me que j passamos o pior. 
Logo mais estaremos em guas calmas
- anunciou o duque.
- No acredito nisso enquanto no atingirmos Gibraltar - respondeu lorde 
Milthorpe. - E eu ainda lhe digo, Varien, que sempre tenho medo de cair e 
quebrar uma perna, quando estou em alto-mar.
- Ah! mas se isso acontecer, eu tenho a bordo uma pessoa que cuidar de 
voc - replicou o duque, acompanhado por uma gargalhada geral.
- Voc est sempre preparado para qualquer eventualidade, Varien - 
comentou sir Charles.
- Realmente procuro estar, mas, em favor das pernas de George, sugiro que 
os senhores se mantenham junto s mesas de jogo. No acredito que 
qualquer um de vocs, com exceo da senhorita Charlwood, desejar 
enfrentar os elementos revoltos.
- Senhorita Charlwood? - perguntou algum com curiosidade.
A jovem ficou vermelha quando todos os olhares se fixaram nela.
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- Eu gosto de estar no convs... - disse a jovem, olhando para o pai em
busca de auxlio.
- Est muito bem, pois suas jovens pernas so mais fortes do que as de
George - replicou sir Charles, sorrindo. - Nada me induzir a deixar o
salo - comentou lorde Wilthorpe com firmeza.
Logo aps o lanche, os cavalheiros voltaram ao salo de jogo, enquanto
Bettina se dirigia para sua cabine. Desejava que seu pai no perdesse
muito dinheiro com as cartas.
- Gostaria de me acompanhar  ponte de comando, senhorita Charlwood? - 
perguntou o duque, aproximando-se.
- Oh! Eu adoraria! Quer realmente me levar at l?
- Meu capito sentir-se-ia honrado em conhec-la - respondeu o duque. - 
Mas vista um agasalho grosso, pois est muito frio l fora.
- Sei disso, e no o deixarei esperando.
A jovem correu alegremente para a cabine e vestiu o casaco de capuz 
enfeitado com pele que pertencera  sua me.
Lembrou-se de como ela ficava bonita com o rosto emoldurado pela pele 
escura, e desejou que o duque tambm a achasse atraente.
Retornando ao lugar onde o deixara, teve a surpresa de encontr-lo com o 
irmo, lorde Edgard. Lembrou-se da discusso que presenciara, na vspera, 
entre os dois irmos, e ficou receosa. Calados, os dois pareciam aguard-
la.
- Estava  sua espera, senhorita Charlwood - disse lorde Edgard, antes de 
o duque se pronunciar -, porque gostaria que ouvisse a leitura de mais um 
dos meus escritos.
Bettina olhou para o duque, mas, como ele se mantivesse impassvel, ela 
respondeu:
- Certamente eu apreciaria, porm mais tarde. No momento, o duque 
convidou-me para ir  ponte de comando, e como  algo que desejo ver h 
muito tempo, no quero perder essa oportunidade.
- Voc quer ir conosco, Edgard? - perguntou o duque.
- Muito obrigado, esperarei a senhorita na biblioteca respondeu lorde 
Edgard em tom rspido.
Assim que ele se afastou, Bettina olhou para o duque.
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- Estou s suas ordens. Como o mar no est muito bravo, no vou vestir o 
impermevel.
-  mesmo, eu fiquei imaginando onde voc tinha conseguido aquele, hoje 
de manh.
- Ora, pertence ao senhor, ou antes, ao navio.  outra demonstrao da 
sua impecvel hospitalidade - disse a jovem cortesmente, enquanto seus 
olhos brilhavam.
- Voc est tentando me confundir, mas tenho sempre em mente o fato de que
esta  uma "viagem de senhoras", e, por isso, at seu final terei uma
longa lista de deficincias que sero sanadas na prxima vez.
Caminhando ao seu lado, ela refletia que, se viesse a assumir um 
compromisso srio com lorde Edgard, conforme seu pai desejava, no teria 
mais muitas oportunidades de encontrar o duque, pois os dois irmos no 
se toleravam.
Lorde Edgard a convidara apenas porque no queria que ela permanecesse na 
companhia do duque.
"Ah, mas eu ainda no lhe perteno", cogitou a moa, e sentiu o corao 
desfalecer, pensando que teria de ouvir, pelo resto da vida, suas 
pregaes contra as extravagncias e o luxo dos nobres.
"Estou agindo mal; deveria ser mais compreensiva e compadecer-me da 
infelicidade alheia", pensou Bettina.
Mas, ao subir as escadas da ponte de comando, decidiu esquecer lorde 
Edgard e seus problemas.
O duque mostrou-lhe uma poro de aparelhos interessantes e foi-lhe dando 
as devidas explicaes. Diante da curiosidade e excitao da jovem, ele 
sorria como se Bettina fosse uma criana que ele tivesse levado ao teatro 
de marionetes.
"Como  maravilhoso!", pensava a jovem. "Alm de bonito e inteligente, 
ele  simptico."
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CAPITULO IV

Era uma quarta-feira, dia 17 de novembro. Bettina acordou cedo, com o
pressentimento de que aquele seria um dia maravilhoso.
No podia acreditar que, naquele mesmo momento, Londres estivesse envolta 
pelo nevoeiro ou at coberta pela primeira neve, enquanto ao seu redor 
tudo resplandecia  luz dourada do sol do Mediterrneo.
Durante a viagem martima, aproximando-se cada dia mais de Suez, Bettina 
sentia aumentar seu entusiasmo e excitao na expectativa do que ainda 
estava por acontecer.
No se entrosara muito com os outros membros da comitiva do duque, mas 
aproveitara para admirar o azul do cu mediterrneo, semelhante ao manto 
de uma madona, e no horizonte distante as primeiras vistas da frica.
Sua fisionomia, deslumbrada por cenrios to belos, despertava nos mais 
velhos a ternura que se tem por uma criana cheia de iluses.
Nos ltimos dias era-lhe muito difcil continuar ouvindo as lamentaes 
de lorde Edgard sobre o estado de misria dos velhos abandonados nos 
barracos e da falta de instruo para as crianas pobres. A jovem no 
conseguia mais concentrar-se no que ele falava ou lia.
Ela prpria, entretanto, recriminava-se por no conseguir condoer-se de
todas as tristes e penosas situaes descritas pelo moo.
Sentia que uma alegria espontnea explodia em sua alma, dando-lhe vontade 
de cantar, danar e abraar as gaivotas que rodeavam os mastros do iate,
assim como os peixes-voadores que saltavam acima da superfcie da gua.
No tivera mais oportunidade de conversar com o duque,
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pois lady Daisy monopolizava-o durante todo o tempo.
Uma tarde, ela escapara da vigilncia de lorde Edgard e sentara-se sozinha
na proa do navio, para melhor usufruir a a natureza admirvel.
Apoiou-se na amurada, apreciando o reflexo dos ltimos  clares do dia na
superfcie da gua, enquanto milhares de estrelas comeavam a cintilar no cu.
- Logo imaginei que voc deveria estar aqui, admirando esta maravilha.
Ela no se voltou, pois sentira que o duque tambm se apoira na amurada,
com o ombro bem prximo ao dela.
-  admirvel! - comentou ela com voz suave.
- O que significa para voc? - perguntou ele. Como ela no respondesse, 
continuou:
- A maioria das pessoas dizem que, diante de um espetculo destes,
sentem-se insignificantes e solitrias.
Bettina no percebeu o leve tom de provocao em sua voz e nem sabia que era
uma frase convencional, destinada a provocar nas mulheres a reao de
buscarem, na fora de seus braos e no calor de seus lbios, o conforto para
a sua solio.
- Eu absolutamente no sinto isso - replicou a jovem.
- No? - perguntou ele, espantado.
- Isso s me faz sentir o grande privilgio que tenho de estar viva.
Percebendo que ele no compreendera seu ponto de vista explicou:
- Os cientistas acham que em cada estrela ou planeta existem outros
mundos, portanto, quando olho para cima, penso em como tudo 
maravilhoso, inclusive o fato de eu estar aqui viva.
O duque manteve-se calado durante alguns instantes, admirando a graa
daquele perfil contra o reflexo do mar.
- Mas toda essa grandiosidade no a faz sentir-se insig nificante?
Bettina sacudiu a cabea e respondeu com simplicidade
- No, s me lembro daquela histria do homem que perguntou a Buda
quantas vezes ele renasceria. Lembra-se?
- No, conte-me.
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Buda estava sentado debaixo de uma imensa figueira, o senhor sabe, a
rvore que possui o maior nmero de folhas, quando um homem se aproximou e
perguntou: Diga--me, senhor, quantas vidas preciso ter antes de alcanar
a sabedoria eterna? " Buda refletiu um instante e respondeu: Tantas quantas
so as folhas desta rvore". Radiante de aleria o homem exclamou: "To
poucas? Que maravilha!" O duque sorriu mansamente.
- Ento voc espera ter muitas outras vidas!
- Acredito que s se possa aprender dentro de um corpo e por isso,  um
privilgio ter um.  nisto que os budistas acreditam, e parece-me uma
explicao lgica de como se pode progredir espiritualmente em direo 
verdade suprema.
- Assim o espero, se realmente encontrarmos alguma coisa ao fim -
comentou ele pensativamente, afastando-se.
Naquela manh de 17 de novembro, Bettina s desejava a luz do sol.
Temera que uma mudana brusca do tempo pudesse prejudicar as festividades
programadas para a inaugurao, por isso ficou muito contente quando
constatou, pela vigia da cabine, que l fora estava um belssimo dia.
Tinham chegado a Port Said onde grande nmero de embarcaes ancoravam
diariamente. Era o porto mais novo do Egito, e ficava do lado do
Mediterrneo, na extremidade norte do istmo de Suez.
Havia mais de oitenta embarcaes de todos os tipos e tamanhos,
enfeitados com bandeirolas coloridas. Bandeiras de quase todos os pases
martimos do mundo tremulavam ao sabor da leve brisa marinha.
Bettina vestiu-se rapidamente, para no perder um segundo daquele
espetculo que entusiasmava a todos, at ao sisudo lorde Edgard.
Os convidados foram logo para o convs, e poucos minutos antes das oito
horas um lustroso iate negro, o Aigle, deslizava suavemente pelo porto
adentro.
Na ponte de comando havia uma senhora, a imperatriz Eugenia, e ao seu lado
um homem mais idoso, de fraque preto:
O senhor Ferdinand de Lesseps.
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Eles navegavam entre as fileiras de barcos, enquanto tiros de canhes
soavam das baterias da praia e dos navios de gUerra  ali ancorados.
A imperatriz acenava com o leno, e a multido aplaudia e gritava de
alegria. Desviando o olhar daquele brilhante deus egpcio, ela olhou para a
multido excitada. Havia operarios e soldados egpcios, bedunos e nobres
turcos. Havia negros do Sudo e brancos de todos os pases da Europa.
Marinheiros gregos e engenheiros franceses misturavam-se aos mercadores
srios, aos encapuzados tuaregues vindos do deserto, e ainda aos ucranianos,
com suas tnicas coloridas e aos xeques de turbantes verdes.
O ar vibrava com os assobios e apitos dos barcos a vapo e com uma onda de
sirenes.
Os canhes continuavam a trovejar e ento as bandas na vais comearam a
tocar uma marcha militar.
O Aiggle deslizava, altaneiro, por entre as centenas de embarcaes, em
direo  entrada do canal de Suez.
Bettina sentia o corao bater descompassado frente a to do aquele
espetculo majestoso.
Diante da pequena frota que acompanhava o Aigle estendiam-se centenas de
milhas de um silencioso deserto, cheio de mistrios, que partia do istmo
de Suez. Porm, a porta que levava  ndia e aos tesouros do distante
Oriente estava agora aberta.
A intervalos de quinze minutos, os outros navios foram en trando, um a
um, pelo canal. Tinham ordens de navegar quinze ns por hora e manter
uma distncia, entre um e outro, de trs quartos de milha. Atrs do Aigle
vinha garbosamente Greif, transportando o prncipe herdeiro do Imprio
Aucstro-
Hngaro, Francisco Jos; a seguir, uma fragata com o prncipe real da
Prssia, e atrs dela um iate holands, com o prncipe e a princesa da
Holanda.
O duque, na ponte de comando do Jpiter, conhecia cada embarcao e
sabia quem estava a bordo.
Ele mostrou o navio russo do gro-duque Mikhail, que representava o czar.
Meio danificado, apareceu o Psyche, trazendo o senhor Elliot, embaixador
britnico em Constantinopla.
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Logo atrs deste seguiu o Jpiter, acompanhando o desfile, assim Bettina
pde assistir ao espetculo encantador com o qual sonhara h tanto tempo!
Lembrava uma miragem fantstica: parecia que os barcos deslizavam
lentamente sobre o deserto, guardados por fileiras de bedunos com seus
albornozes brancos, nas margens do canal. Seria impossvel traduzir em
palavras o que a jovem sentia. Os outros, ocupados com tagarelices e
comentrios, deixavam-na felizmente sossegada para sentir profundamente
todo aquele evento maravilhoso.
Pouco antes das seis da tarde, o iate que levava a imperatriz e o senhor 
De Lesseps entrou no lago Fimsah.
O duque contou aos seus convidados que, enquanto o canal estava sendo
dragado, os operrios construram uma cidade junto aos lagos. Chamaram-na
Ismalia, em honra do quediva do Egito, e no havia dvida de que aquele
era o melhor lugar para ele dar uma festa.
Do iate Bettina avistava os contornos dos edifcios, todos ornamentados
com flores e bandeirolas de cores muito vivas. As luzes brilhantes da
cidade, como estrelas cadas do cu, faziam tudo aquilo parecer uma
viso das Mil e uma Noites. a - Isso custou uma fortuna ao quediva! -
comentou lorde Milthorpe.
- S os custos desta festa iro para alm de um milho e ymeio de libras
- acrescentou o duque.
Bettina ouviu lorde Edgard soltar uma exclamao de desgosto, e por isso  
afastou-se logo dele.
O quadro estava to lindo que ela no queria estrag-lo com as 
preocupaes de custo. Sabia que lorde Edgard iria comentar que milhes 
de egpcios estavam morrendo de fome e que
O dinheiro gasto naquela imensa festa deveria ter sido encaminhado para
eles.
Todos os navios que tinham descido o canal ancoraram no lago.
A jovem gostaria de ficar ali a noite inteira apreciando aquele 
Movimento, ouvindo a msica e o barulho da multido nas margens. Mas,
afinal, decidiu ir se deitar, pois o dia seguinte Seria muito agitado.
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WO iate do duque, com sua comitiva, no chegara a Port Sai antes do dia
17, como muitos navios e iates haviam feito. Por isso, eles tinham perdido
a cerimnia religiosa que se realira na praia, na vspera, com a
presena da imperatriz.
Um amigo do duque, que viera a bordo, contara-lhes
- Foi uma cerimnia religiosa como nunca se viu, anteriormente, em todo o
Oriente!
E continuou a contar:
- Sobre um pequeno palanque, ao som do toque da alvorada, o gro Ulema
fez um pequeno discurso, seguido pela orao de Moslem.
- Deve ter sido impressionante! - exclamara o duque, entusiasmado.
- Foi mesmo. E  direita, sobre outra plataforma, o bispo de Alexandria,
com sua mitra, oficiou um Te Deum cristo!
- Sinto muito temos perdido isso! - exclamou o duque.
- Mas eu s decidi vir quando soube que o prncipe de Gales no viria.
- O quediva ficou muito desapontado com essa ausncia. mas deseja muito
conhecer o senhor.
- Alegro-me em saber disso! E, ao menos, chegamos para a festa! -
acrescentou o duque.
Novamente amanheceu um dia maravilhoso, e Bettina apressou-se a subir ao
convs. O cenrio parecia ainda mais encantador do que na noite anterior.
O novo palcio do quediva, construdo sobre uma colina junto ao lago, 
dominava a cidade inteira.
Os navios de guerra j tinham posto em ao suas baterias de canho, e o
barulho das sirenes e apitos enchiam alegremente o ar.
O duque dissera  sua comitiva que estivesse pronta para desembarcar logo 
depois do caf, e l se foram todos. Havia flores e bandeirolas coloridas 
por todos os lados, formando arcos e outros desenhos. At as rvores 
estavam lindamente enfeitadas.
O duque foi recebido pelo quediva, e  tardinha uma lancha trouxe a 
imperatriz e Ferdinand de Lesseps para o lanche, depois do qual eles 
deram uma volta pela cidade.
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Bettina encantou-se com a imperatriz, que usava um vestido amarelo-claro
e um lindo chapu de palha, com um enorme lao de tule.
Houve um longo desfile de carruagens para atravessar as ruas da cidade, 
entre duas fileiras da cavalaria egpcia, composta de cavalos brancos e 
baios.
Atravessaram a cidade e chegaram ao deserto, perto de Ismaflia. L havia 
um enorme acampamento para trinta mil rabes, tambm convidados do 
quediva.
A tinham montado suas tendas coloridas, que abrigavam suas mulheres, 
filhos, criados, camelos e rebanhos de carneiros.
A comitiva do duque uniu-se  imperatriz, a Ferdinand de Lesseps e ao 
imperador Francisco Jos, qu, entre outras realezas, sentaram-se sob uma 
enorme e suntuosa tenda, especialmente armada para eles.
Parecia que o duque conhecia todos intimamente, e a imperatriz concedeu-
lhe uma saudao muito especial. Bettina percebeu uma expresso de 
suavidade em seu olhar, quando ele lhe beijou a mo.
- Tive um pressentimento de que Vossa Alteza estaria aqui
- disse ela com um sorriso encantador.
- Como eu poderia deixar de vir, ao saber que Vossa Majestade seria a 
convidada de honra? - replicou o duque.
Ela sorriu novamente e afastou-se para juntar-se  sua comitiva, 
instalada junto  princesa Sofia da Holanda e ao prncipe-herdeiro 
Frederick, da Prssia.
Todos conversavam com o duque e sir Charles. Bettina, porm, preferia 
observar os luxuosos tapetes orientais, postos sobre a areia, nos quais
eles pisavam. Admirava as lindas bandejas de bronze colocadas em cima
das pequenas estantes de madeira, com caf, tmaras e outras delcias.
Gostava de olhar os chefes rabes, vestidos com amplos albornozes de l
branca e trazendo na cintura adagas de cabos trabalhados com pedras
preciosas.
Repentinamente, um desses chefes levantou o brao, dando um sinal, e  
frente da tenda perfilaram-se garbosos cavaleiros rabes. Eles seguiram a 
galope, com seus albornozes esvoaando como asas e atirando ruidosamente 
para o ar. A
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seguir, grandes nuvens de poeira levantaram-se, e no amainaram enquanto
no cessou uma corrida de seis milhas de dromedrios montados por outros
rabes, que soltavam gritos alegres.
A seguir, surgiu um grupo de selvagens dervixes do Sudo, vindos para 
entreter os convidados do quediva.
Alguns seguravam tochas acesas entre os dentes, e outros engoliam 
escorpies vivos.
Depois, faquires apresentaram suas artes mgicas, e Bettina ficou 
extasiada com as maravilhas que faziam.
Foi difcil reunir todos os hspedes para voltarem ao iate, pois tinham 
de se aprontar para a festa noturna, no palcio do quediva.
Quando chegaram ao porto, fogos de artifcio subiam aos cus, formando 
rosas e outros desenhos, enquanto estrelas explodiam alm.
Rose esperava Bettina para ajud-la a pr o vestido branco escolhido para 
aquela ocasio.
Ela tomou um banho demorado, pois a areia do deserto cobrira sua pele com 
uma leve camada dourada.
Bettina deu um suspiro ao olhar para o lindo, mas simples vestido de 
seda, comprado em Londres.
Comparado ao de lady Daisy e aos das outras senhoras, que certamente se 
assemelhariam a pssaros do paraso, o dela poderia no agradar ao pai ou 
ao duque.
- Provavelmente todas as senhoras vo usar jias - comentou ela com Rose.
- Sim, certamente, senhorita. Sua Alteza emprestou a lady Daisy a tiara
dos Alveston, que mais parece uma coroa.
Ela parou um instante e continuou com um leve sorriso:
- Lady Tatham estar usando as esmeraldas dos Alveston. "E eu nem sequer
tenho a estrelinha de brilhantes de mame", pensou Bettina tristemente.
Uma leve batida na porta tirou-a de seus pensamentos, e, quando Rose
voltou, trazia nas mos um ramalhete de orqudeas em forma de estrelas,
iguais s que ela usara na primeira noite da viagem.
- Para mim? - perguntou ela.
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- com os cumprimentos de Sua Alteza, senhorita.
- Que maravilha!  exatamente o que eu preciso! Voc poderia arrum-las
no meu cabelo, Rose?
Havia orqudeas suficientes para enfeitar o cabelo e ainda para fazer um 
buquezinho para prender ao vestido. Elas deram uma graa especial ao 
conjunto, e eram muito mais significativas do que qualquer jia.
Ao entrar no salo onde todos se reuniam antes de descerem do iate, 
percebeu que Varien olhava para ela. Dirigiu-se, ento, a ele:
- Muito obrigada pelas orqudeas. Foi muita bondade sua lembrar-se de 
mim. E veja como elas me enfeitam.
-  que so iguais a voc - disse ele calmamente. - Mas voc no precisa 
delas, pois seus olhos brilham como as estrelas que apreciamos algumas 
noites atrs.
Espantada com aquele elogio inesperado, ela se afastou para junto do pai, 
quando percebeu que lady Daisy entrava no salo, rebrilhando com seus 
diamantes.
- Est gostando, minha boneca? - perguntou o pai.
Ela lhe sorriu, mas nem respondeu, pois no havia necessidade. Na 
verdade, no tinha palavras para expressar seus sentimentos.
O palcio do quediva, construdo em menos de seis meses, era rodeado por 
caprichosos jardins cheios de flores, no meio dos quais havia um lindo 
pavilho para as grandes festas. Nas palmeiras, lanternas chinesas e 
candelabros de cristal, vindos de Paris, iluminavam cada canto. Cadeiras 
douradas e mesas de mrmore entre quadros famosos, vindos tambm da 
Frana, completavam o conjunto.
Mil garons de librs vermelhas e cabeleiras empoadas circulavam entre os 
convivas. Sir Charles contou ainda a Bettina que, na cozinha, quinhentos 
cozinheiros preparavam o banquete.
Era difcil chegar ao palcio com as carruagens, por causa da multido 
que se divertia nas ruas, olhando msicos e danarinos, mgicos e 
malabaristas. Dentro do prprio palcio mal dava para andar ou at 
respirar.
Pouco antes da meia-noite a imperatriz Eugenia chegou, lindssima no seu 
vestido de cetim vermelho bordado de diamantes,
69
com uma brilhante coroazinha sobre os cabelos escuros. Bettina
achara as condecoraes do duque maravilhosas, at o momento em que viu
as dos diplomatas e outros chefes de Estado, alguns dos quais ainda 
usavam espadas de punhos cravejados de pedrarias.
Felizmente a comitiva do duque encontrava-se no salo de jantar real, 
pois no pavilho talvez no tivessem conseguido comer ou beber qualquer 
coisa.
A pessoa mais importante, porm, que todos queriam ver e cumprimentar,
era certamente Ferdinand de Lesseps.
Bettina comeou a imaginar como madame de Vesarie teria se sentido feliz
em poder apertar-lhe a mo e cumprimentlo, como todos estavam fazendo,
naquela ocasio.
- Merci, merci - dizia ele emocionado. - Merci, millefois. Aos sessenta e
quatro anos, sua aparpcia de um bondoso
vov no deixava transparecer o quanto lutara e sofrera para realizar o
seu grande sonho.
- Deu toda a sua vida para a construo deste canal disse Bettina para si 
mesma, em voz alta.
E assustou-se quando lorde Edgard, ao seu lado, comentou:
- Sim,  uma conquista, mas na minha opinio estragada por toda essa 
extravagncia. Imagine voc que foram servidos 24 pratos diferentes neste 
banquete, e, no entanto, ao menos um quarto dos habitantes do pas  
desnutrido.
- Eu sei,  horrvel! Mas, por favor, no me fale disso esta noite. Quero 
ter a lembrana de quanto tudo isso foi lindo, dos enormes candelabros 
sobre as mesas, das jias, das flores e da felicidade que se v no rosto 
do senhor De Lesseps.
- O quediva no sorrir, quando compreender que causou a bancarrota do 
seu pas - comentou lorde Edgard asperamente.
No conseguindo mais aguentar os comentrios dele, a jovem voltou-se para 
o vizinho da esquerda, a fim de ouvir os elogios que este lhe fazia.
A noite passou muito depressa, e quando voltaram ao iate, o duque 
comunicou-lhes que iniciariam a volta  Inglaterra, e no acompanhariam a 
excurso que os outros convivas fariam ao mar Vermelho.
70
- Daqui por diante, percorreremos frequentemente esta rota. Vocs 
compreendem: agora  possvel irmos da Inglaterra  ndia em dezessete 
dias, em vez de quatro meses! exclamou o duque, triunfante.
-  fantstico! - concordou lorde Milthorpe. - Por outro lado, talvez o
mundo venha a ficar muito pequeno, e logo nos enjoaremos dele.
- Ah! voc  um pessimista, George! Ou ser que  preguioso e prefere as 
coisas vagarosas? - retrucou o duque, aborrecido.
Todos riram disso, mas, como o iate estava manobrando para regressar a 
Port Said, Bettina preferiu sair a fim de apreciar, ainda uma vez, o 
deserto, e pedir a Deus que um dia pudesse voltar.
No dia seguinte, todos estavam exaustos: depois de um dia estafante, 
tinham ido dormir muito tarde. Foi essa talvez a causa do nervosismo que 
levou a novas brigas entre lady Daisy e lady Tatham. Bettina esgueirou-se 
do salo e foi olhar o movimento do porto de Suez, onde o iate atracara.
Os ancoradouros no estavam mais to cheios como no dia da inaugurao, 
mas os cinco navios de guerra que haviam saudado o Aigle ainda se 
encontravam ali.
Assim iluminados, e se refletindo nas guas mansas, ficavam muito mais 
imponentes. Entretanto, no se comparavam ao cu recoberto de estrelas, 
onde uma linda e enorme lua vermelha surgira no horizonte.
Romntica e sentimental, Bettina comeou a imaginar como seria poder 
apreciar toda aquela beleza ao lado da pessoa amada.
Mas, afinal, como seria o amor? O amor que existira entre seus pais e que 
ela sonhara encontrar um dia...
Estremeceu ao pensar assim. Caso viesse a se casar com lorde Edgard, como 
seu pai queria, jamais iria experimentar um amor sensual e ao mesmo tempo 
espiritual, como achava que uma mulher deveria sentir pelo homem com o 
qual pretendesse se casar.
71
"Como poderei sentir isso por ele?", perguntou a si prpria em 
pensamento.
Por enquanto, s sabia que quando ele se aproximava com seus panfletos, 
instintivamente tinha vontade de se afastar. Tambm, se acidentalmente a 
mo dele tocava na sua, sentia um arrepio de quase repugnncia, que 
disfarava com educao.
"Como poderei casar-me com ele? Oh, mame, como farei isso?", perguntava 
ela s estrelas to distantes. Apesar do mormao da noite, sentia um 
pouco de frio.
"Devo estar cansada, isso  tudo. vou deitar-me, agora; amanh ser outro 
dia."
Bettina entrou na cabine e, alguns momentos depois, Rose tambm chegou 
para ajud-la a se despir. Olhando para a camareira, percebeu que alguma 
coisa deveria ter acontecido. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e 
havia uma expresso de profunda tristeza em seu rosto sempre sorridente.
- O que aconteceu, Rose? - perguntou Bettina.
- Nada, senhorita.
- No  verdade. Voc est triste, e eu quero saber a razo.
- No posso dizer-lhe, senhorita - replicou Rose, que desatou a chorar, 
puxando um leno do bolso do avental.
- No posso v-la assim infeliz! Por favor, Rose, conteme o que h. Ser 
que morreu algum parente seu?
- At pode ser - murmurou Rose.
- Mas no chegaram cartas da Inglaterra. O duque mesmo o disse, esta 
manh, portanto voc no pode ter recebido notcias.
- No  isso, senhorita. E nem a senhora nem ningum pode ajudar-me!
Bettina olhou a porta da cabine, para ver se estava bem fechada, e disse:
- Olhe aqui, Rose, se voc me contar um segredo, pode estar certa de que 
no irei espalh-lo por a. No posso v-la assim. Conte-me o que 
aconteceu.
- Foi aquele lorde, milady -soluou a jovem.
- Que lorde? - perguntou Bettina, espantada.
- Lorde Edgard.
72
- Mas o que ele fez para deix-la assim transtornada?
- Ele nos viu, a mim e ao Jack. E a senhora no pode imaginar o que ele 
nos disse.
- Quem  Jack? - perguntou Bettina.
- Ele  meu namorado. Ns nos amamos, e ele quer casar-se comigo. Vamos 
ficar noivos assim que chegarmos em casa e participarmos o fato s nossas 
famlias, mas agora eu no quero mais.
- No estou entendendo. Conte-me tudo desde o comeo. Rose procurou 
controlar-se e enxugou os olhos, apesar de
as lgrimas teimarem em escorrer pelo seu rosto.
- Simpatizei com Jack desde que cheguei a bordo.  um dos marinheiros, e 
foi sempre muito amvel comigo. Ele disse que tambm gostou de mim desde 
o primeiro momento em que me viu. Comeamos a namorar. Comportou-se 
sempre muito bem. Nunca tentou me abraar ou beijar. Eu juro.
- Acredito em voc, mas continue.
- Ontem estvamos l no convs, apreciando as estrelas, e a ele me pediu 
em casamento e me beijou pela primeira vez. Lorde Edgard nos surpreendeu 
e disse coisas que a senhora nem pode imaginar. Ele acusou Jack de mau 
comportamento, e disse que vai falar com o capito para despedilo, quando 
chegarmos  Inglaterra.
Os soluos desesperados interromperam outra vez a narrativa. S depois de 
acalmar-se, Rose continuou:
- E... ele ainda disse... que vai falar com a governanta l de casa para 
mandar-me embora sem nenhuma referncia.
Depois de profundo suspiro, ela prosseguiu:
- Isso quer dizer que eu no arranjarei mais outro emprego, e Jack tambm 
vai ficar sem o dele. E como vamos nos casar?
- Nunca ouvi coisa mais estpida. Vocs disseram a lorde Edgard que vo 
se casar?
- Ele no quis ouvir nada. S esbravejava, dizendo que eu sou uma mulher 
da rua. Eu no sou isso, juro-lhe, senhorita!
Rose cobriu o rosto com as mos, chorando desesperadamente.
73
Bettina ps o brao nos seus ombros e tentou acalm-la.
- Chega, chega, Rose. No chore mais. Prometo-lhe que darei um jeito 
nisso.
- No vai adiantar falar com ele, senhorita. Quando decide uma coisa,
sempre a cumpre. Eu o conheo.
- Por que voc diz isso? - perguntou Bettina.
- Ele tirou minha velha vov de uma casinha l em Alveston. Ela morou l 
a vida inteira, e todos eram seus amigos. Mas lorde Edgard disse que a 
casa era insalubre, e mandou demoli-la.
- Mas ele no podia obrig-la a sair assim.
- Ele tanto fez, que conseguiu um despejo oficial.
- Mas puseram-na na rua? - exclamou Bettina, admirada.
- No, nem tanto. Mas lhe arranjaram uma casinha num lugar distante, onde 
ningum vai visit-la. Ela est minguando aos poucos. Nem sei se ainda a 
encontrarei viva, quando chegarmos  Inglaterra.
Rose tomou flego, mas, num novo acesso de choro, continuou:
- E  isso que vai acontecer comigo: vou morrer se no puder casar-me com 
Jack. Alm do mais, como iremos nos arrumar sem emprego? No vamos ter 
nenhuma chance de casar.
- No, no vai acontecer nada disso. Prometo a voc confirmou Bettina.
Ela ainda quis dizer  moa que, se tudo falhasse, seu pai a empregaria e 
tambm arranjaria um trabalho para o moo. Sabendo, porm, que o pai no 
tinha dinheiro para contratar uma empregada, teria de dar outra soluo 
para o caso.
- Prometo-lhe que farei alguma coisa. Isso no vai acontecer com voc. Eu 
no permitirei!
- No sei como poder ajudar-me, senhorita, mas agradeo-lhe de qualquer 
forma. Eu no deveria estar desabafando desse jeito.
- Desejo apenas ajud-la. E  o que vou fazer. Quando a criada ia saindo 
da cabine, Bettina ainda lhe
disse:
- Procure agora dormir um pouco. Veja se consegue mandar
74
um recado para o Jack, dizendo que vou tentar ajud-los.
A pobre moa estava emocionada com a gentileza de Bettina, e nem pde
responder. Fechou devagarinho a porta e se foi.
Deitada, Bettina comeou a relembrar o relato da criada. Mal podia 
acreditar que lorde Edgard, com todos os seus panfletos, fosse to 
insensvel. E porque percebera neles um tom autoritrio, pde compreender 
que ele no tivesse dado ouvidos s explicaes de Rose e Jack, 
certamente muito mal apresentadas. Ento uma empregada no poderia ter os 
seus admiradores?
"Lorde Edgard, certamente, achou que era um namorico de viagem", pensou 
ela, tentando desculp-lo. Mas como, por outro lado, confiava em Rose, 
acreditou que ele fora impetuoso em tirar concluses errneas, achando 
que eles estavam se comportando de maneira indecorosa.
Meditando sobre tudo aquilo, Bettina s conseguiu adormecer de madrugada. 
Quando acordou, meio tarde, j estavam navegando em pleno Mediterrneo.
Durante as horas de reflexo, chegara  concluso de que o melhor seria 
falar diretamente com o duque.
com certeza ele compreender tudo, e no permitir que seus empregados
sejam injustiados." 
Vestiu-se rapidamente, mas com capricho. Ps um vestido bem leve, verde-
gua, que lhe dava um aspecto muito jovem e primaveril.
As senhoras ainda no tinham se levantado, mas os cavalheiros conversavam 
na sala de refeio, tomando caf.
Bettina sabia que, quela hora, o duque costumava fazer uma corrida pelo 
convs, e foi ao seu encontro. Avistando-o na outra extremidade, correu
para l mas tendo ele mudado de direo, os dois se chocaram.
A jovem soltou uma exclamao de susto, e ele a segurou Pelos ombros,
para evitar que casse.
- Parece ter muita pressa, srta. Charlwood, ou ser que est fugindo de
algum?
- Estava  sua procura, Alteza - respondeu Bettina sem flego.
- Ento j me encontrou - disse ele sorrindo.
75
com o corao batendo tumultuadamente, ela disse:
- Eu preciso lhe falar com urgncia. Encarando-a por um momento, o duque 
percebeu sua ansiedade e concordou.
- Estou pronto a ouvi-la, mas  melhor nos sentarmos pois parece estar 
muito cansada.
Sem saber por onde comear, a moa esfregava as mos nervosamente.
- O senhor pode achar estranho que eu venha incomoda-lo com algo... que
parece banal.
- Nada que se refira a voc, pessoalmente,  banal para mim - contestou o  
duque, bondosamente.
Depois de um breve silncio, Bettina criou coragem e comeou a falar.
- Ontem  noite, Rose, isto ... a moa que cuida de mim estava
desesperada.
Ela olhou para o duque, esperando um aparte dele, dizendo que os
sentimentos de seus empregados no lhe interessavam, mas como ele
continuasse calado, ela prosseguiu:
- Estava debulhada em lgrimas, e eu a obriguei a contarme o sucedido. 
Ela me disse que era devido a uma certa atitude de lorde Edgard.
- Edgard!
O duque repetiu o nome com um tom incrdulo na voz.
S ento Bettina compreendeu que no iniciara bem a narrativa do caso. O 
duque poderia tirar uma concluso errada de suas palavras, por isso 
apressou-se em corrigi-las.
- No, no! Lorde Edgard no fez, pessoalmente, nada a Rose. No  isso, 
no.
- Mas ento, o que ele fez?
Hesitante, Bettina narrou-lhe toda a histria que Rose lhe havia contado. 
Ao terminar, no teve coragem de olhar para o duque, mas acrescentou com 
sinceridade na voz:
- Eu confio em Rose, ela no  esse tipo de moa. Conversei sempre com 
ela, enquanto me ajudava a me arrumar, e sei que seria incapaz de 
qualquer ato menos digno, conforme lorde Edgard concluiu 
precipitadamente.
76
O duque no disse nada, mas sua fisionomia assumiu uma expresso grave e 
irritada.
- Sinto muito se o aborreci com minha conversa, mas no quis falar com o 
capito, pois mal o conheo. Por outro lado, a coitada da moa no pode 
continuar sofrendo at chegarmos  Inglaterra.
- No, no, foi bom ter vindo falar comigo, e no estou zangado com voc, 
nem com Rose ou com seu namorado.
- Eu sabia que o senhor compreenderia. Eu...
- E por que voc achou que eu compreenderia?
- Porque o senhor no  intolerante e ditador... - ela parou de falar, 
pois no queria incriminar lorde Edgard.
Depois de uns instantes, ele comentou:
- Ah! Os "benfeitores" do mundo so frequentemente uma desgraa.
Bettina achou-se no dever de dizer alguma coisa em favor de lorde Edgard.
- Eles tm boas intenes, mas s vezes imbuem-se tanto de suas ideias 
que se tornam fanticos e at esquecem os aspectos mais delicados de 
certas questes.
-  o que tambm acho. Mas no se preocupe, senhorita. Deixe esse
problema comigo. Eu cuidarei dos seus protegidos para que possam se 
casar.
Sorrindo e com os olhos brilhantes de alegria, a jovem encarou-o e disse:
- Que bom o senhor pretender ajud-los; eu tinha certeza de que faria 
alguma coisa! Vo ficar felizes!
com essas palavras a jovem afastou-se, indo rapidamente para sua cabine. 
A encontrou a criada arrumando a cama.
- Pronto, Rose. Acabo de falar com o duque, e est tudo arranjado. Voc 
vai at poder casar-se com seu marinheiro, e vo ter seus empregos 
garantidos.
- Oh, senhorita! No sei como agradecer-lhe! - E, de tanta alegria, a 
pobre Rose desatou a chorar.
O duque foi ao salo de jogo,  procura de seu meio irmo, mas s 
encontrou sir Charles, muito desanimado.
- O que houve, Charles?
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- Fiz ontem  noite uma aposta com Downshire, e acho que, a essas horas, 
j perdi.
- Eu lhe recomendei que no se envolvesse com ele.  uma dessas pessoas 
que sempre saem ganhando.
- Voc tem razo - disse sir Charles, com um suspiro.
- Viu Edgard? - perguntou Varien.
- Sim, estava tomando caf na sala de jantar.
Um criado entrou, trazendo vrios cinzeiros de prata. Vendo-o, o duque 
disse:
- Pea a lorde Edgard para vir ter comigo, e no volte enquanto eu no o 
chamar.
- Muito bem, Alteza.
- Se voc vai falar com ele particularmente, eu me-retiro - disse sir
Charles.
- No, fique.  bom voc ouvir o que tenho a lhe dizer
- respondeu o duque.
- Eu preferia no participar dessa conversa - disse Sir Charles, olhando 
desconfiado para a fisionomia zangada do
amigo.
- Fao questo de uma opinio objetiva sobre esse assunto. Alguns minutos 
depois, lorde Edgard entrou no salo.
- Quer falar comigo, Varien?
- Sim. Entre e feche a porta!
Lorde Edgard obedeceu e ficou aguardando as palavras do irmo.
- Eu soube que, ontem, voc acusou dois empregados meus de mau 
comportamento.
- Foi mesmo. Achei sua conduta muito censurvel - confirmou lorde Edgard.
- No acha que deveria ter vindo falar comigo sobre esse caso?
- Sim, eu tinha a inteno de contar ao capito sobre o mau comportamento 
do marinheiro, para que o despea quando voltarmos  Inglaterra - 
respondeu lorde Edgard.
- Mas que coragem a sua! Como ousa interferir na minha tripulao? E, 
ainda mais, que puna meus empregados, quando voc no tem nada a ver com 
isso? - disse o duque, furioso.
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- Quando eu contar ao capito sobre a atitude desrespeitosa de um dos 
membros da sua tripulao, ele certamente no mais o conservar a bordo. 
Quanto  jovem, talvez quisesse imitar o comportamento de algumas das 
suas hspedes, mas isso no  desculpa - replicou lorde Edgard.
- Se continuar falando dessa maneira, eu o jogarei ao mar, e espero que 
morra afogado!
- Bem posso acreditar nisso, porque voc no gosta de ouvir as verdades, 
Varien. A moral a bordo deste navio  uma vergonha para a sociedade e 
para o nome de nossa famlia. Portanto, no  de se surpreender que os 
empregados sejam to licenciosos quanto os patres.
O duque deu um salto da cadeira e ia empurrar o seu meio irmo, mas sir 
Charles interveio, colocando-se entre os dois e dizendo:
- Seria um erro perder a calma, Varien. E voc, Edgard, no tem o direito 
de falar assim com seu irmo.
- Tenho todo o direito! - replicou Edgard. - Voc pode imaginar como me 
sinto, ao v-lo desperdiar o dinheiro com mulheres que chegam a ser 
quase prostitutas e com homens completamente infiis s suas esposas? - E 
continuou, em tom mais alto: - Ele no se importa em deixar Alveston ir  
bancarrota e  runa, contanto que possa continuar as suas atividades de
casanova.
Lorde Edgard cuspia essas palavras no rosto de sir Charles, mas o duque 
interferiu, dizendo:
- Isso tudo  uma mentira, mas mesmo que fosse verdade, no  da sua 
conta! Eu sou o chefe da famlia, e posso fazer o que quiser!
- E eu sou seu herdeiro, e quando voc morrer, terei de restabelecer a 
ordem e a decncia nesse monte de imoralidades em que jogou tudo - disse 
ele ao sair, batendo a porta.
Depois daquela exploso, o duque disse calmamente:
- De fato, meu herdeiro! Charles, eu peo a mo de sua filha em 
casamento.
79

CAPTULO V

Aps arrumar a cabine, Rose saiu, e Bettina ficou pensando no que poderia
fazer. Lembrou-se da golinha de renda de um de seus vestidos, que
necessitava de uns pontinhos.
Tomou a velha caixinha de costura de sua me e se ps a cerzir, 
cuidadosamente, a renda to antiga e frgil.
No tempo do colgio, madame de Vesarie exigia que as alunas tivessem 
noes de todas as atividades domsticas femininas.
Aprendiam a tocar piano, a desenhar, pintar a aquarela e bordar com 
aqueles pontos, tradicionais h centenas de anos.
As jovens mais adiantadas aprendiam tambm a cozinhar, para que pudessem 
depois, em suas casas, fazer massas, gelias, doces e temperos especiais.
Como Bettina ficara muito tempo no colgio, aprendera tudo o que madame 
de Vesarie tinha para ensinar.
Ali sentada, costurando com capricho aquela finssima gola, refletiu que 
se viesse a se casar com lorde Edgard, como seu pai queria, certamente, 
em vez de materiais to finos, iria costurar roupas bem mais grosseiras 
para os pobres.
"E por que pessoas como lorde Edgard fazem os pobres sentirem-se
menosprezados e servis, sem direito a ter sentimentos ou vontade
prpria?"
 cogitava a moa.
Era aquela uma forma ditatorial e impositiva de fazer o povo agir do modo
que as autoridades julgavam correto, ao invs de persuadi-lo a cooperar
espontaneamente.
Meditando sobre tudo aquilo, deu um profundo suspiro, refletindo no que 
sucederia se expusesse tais ideias a lorde Edgard. Certamente, nem lhe 
daria ouvidos!
A porta abriu-se repentinamente, e seu pai entrou com expresso 
preocupada.
80
- O que aconteceu? - perguntou a jovem, espantada. Sir Charles fechou 
cuidadosamente a porta e dirigiu-se 
vigia da cabine. Aspirou profundamente a brisa martima.
- Preciso contar-lhe uma novidade, Bettina.
- O que , papai?
- Acabei de conversar com o duque.
- com o duque? - perguntou a moa, temerosa de que ele tivesse mudado de 
ideia a respeito do caso de Rose. Senti-use pesarosa com esse pensamento,
e olhou ansiosa para o pai.
- O duque pediu-me para lhe dizer que deseja casar-se com voc!
Bettina ficou to surpresa que largando a costura, deixoua cair. Juntou
as mos sobre o peito, como se quisesse acalmar o tumulto que a brotou.
Num murmrio, perguntou ao pai:
- Isso ... uma brincadeira?
- No, Bettina. O duque disse muito a srio: deseja t-la como esposa.  
claro que vai falar com voc pessoalmente, mas primeiro pediu minha 
permisso, e eu a dei de boa vontade.
Muito satisfeito, sir Charles sentou-se na beira da cama. para conversar
melhor.
- Mal posso acreditar! Nem em meus sonhos mais desvairados jamais pensei
que voc pudesse casar-se com Varien!
A jovem no conseguia articular uma palavra, e ele prosseguiu:
- O seu casamento com lorde Edgard j me parecia um voo bem alto. Como 
voc sabe, nos crculos aristocrticos, as famlias encarregam-se de 
arranjar, de acordo com interesses econmicos, os casamentos de seus 
filhos.
Depois de breve silncio, continuou:
- Para uma moa simples como voc, aspirar a ser uma duquesa, na 
Inglaterra,  como querer ir  lua! Se Varien realmente vier a se casar 
com voc. sem dvida alguma voc ser uma grande felizarda!
S depois desse desabafo sir Charles encarou a filha pela primeira vez.
81
A jovem fitava-o com olhos muito arregalados, que revelavam sua 
incredulidade.
- Voc  como sua me, e eu jamais encontrei uma pessoa to encantadora 
como ela, em toda a minha vida - disse o pai com voz profundamente 
comovida, em oposio ao tom de surpresa e triunfo que usara at ento.
Como ele ficasse em silncio, aguardando uma resposta, ela disse, clara e 
vagarosamente:
- Mas... por que o duque quer se casar comigo?
- Bem. se pensar um pouco, achar a resposta. Ele precisa de um herdeiro 
e detesta Edgard! Ningum pode censurlo por isso!
- Mas voc me contou que ele sempre disse que no queria casar-se outra 
vez... depois do insucesso do primeiro matrimnio.
- Sim. minha cara. mas os homens tambm mudam de opinio. Voc e eu temos 
de agradecer a Deus e aos astros o fato de o duque ter mudado de ideia.
- Naturalmente voc deseja que eu me case com ele. papai, mas...
- Claro que desejo! No h dvida nisso! Imagine s. voc, senhora de
Alvcston House. em Park Lane! A segunda em importncia, depois de
Marlborough House! E ainda dona de um dos mais bonitos castelos da
Inglaterra! E sabe Deus de quantas outras propriedades!
Reparando na expresso assustada da filha, falou em tom mais calmo e
conciliador:
No estou s pensando nas posses do duque. Voc sabe o quanto gosto dele.
Ele  bem mais jovem que eu. mas sempre o considerei um dos meus melhores
amigos. O mais importante  que ele  muito estimado por todos.
E, adivinhando o pensamento de Bettina, ponderou:
-  claro que tambm houve mulheres na sua vida, muitas at. Elas caem em
seus braos como frutas maduras, e ele seria tolo se as repelisse! De uma
coisa, porm, tenho certeza: Varien vai sempre tratar sua mulher com
respeito e cortesia.
Suspirando, Bettina fez um gesto como se fosse protestar
por isso sir Charles acrescentou:
- No duvide disso, minha filha! Mesmo que oua outros comentrios sobre
suas atitudes, Varien  um cavalheiro! E no que lhe disser respeito, pode 
estar certa de que ele sempre se eomportar como tal.
Bettina abaixou-se para apanhar a costura que lhe cara das mos.
- O duque est  sua espera - disse sir Charles. - Voc o encontrar no 
seu escritrio particular, na outra ponta do iate.
- Ma-a-as... o que devo dizer-lhe, papai?
- O que vai dizer? - perguntou ele, incrdulo. - Aceitar o seu pedido de 
casamento incondicionalmente! E ajoelhar-sse e agradecer a Deus por tanta 
felicidade.
Novamente ele deu um profundo suspiro, repetindo:
- Mal posso acreditar no que est acontecendo. Na realidade, ainda hoje 
de manh eu estava desesperado, Bettina, porque perdi muito dinheiro 
ontem  noite.
- Ah, no! Papai!
- Estava me acusando de ser um tolo! Mas agora, j no importa. No tem a 
mnima importncia!
No houve necessidade de explicaes. Bettina compreendeu que, como sogro 
do duque de Alveston, seu crdito seria ilimitado.
E o mais importante: se at ento ele sempre fora bem recebido em toda 
parte, melhor ainda seria, como sogro do duque.
Num murmrio, ela disse:
- Eu irei... ver o duque, papai, mas explique-me como chegarei ao seu 
escritrio.
- Atravesse o salo de fumar. Logo depois vm os aposentos particulares 
do duque. Ningum invade aquela parte do iate, onde ele s vezes gosta de 
se isolar.
Sem dizer uma palavra, sem ao menos uma olhadela ao espelho, ela saiu da 
cabine, atravessando silenciosamente os corredores e a sala de refeies,
onde ouviu as conversas e risadas de alguns hspedes.
Agia como se fosse um autmato, obedecendo  ordem que recebera. Avanou 
pela sala de jogo, felizmente vazia naquela hora. e chegou a uma parte do 
suntuoso barco onde jamais estivera.
83
Viu uma porta aberta e o interior de uma grande cabine, com uma linda
cama de mogno. Ficou indecisa, sem saber o que fazer. De uma porta
lateral surgiu um criado idoso, que lhe falou cordialmente:
- Bom-dia. senhorita. Sua Alteza est  -sua espera. Ele lhe abriu a 
porta de uma cabine menor, toda dourada pelo sol que entrava pelas 
vigias.
Num relance, ela viu uma estante cheia de livros, duas poltronas de couro 
vermelho e gravuras nas paredes. Seus olhos encontraram, ento, os de 
Varien, que se levantara de uma cadeira junto a uma escrivaninha, para 
cumpriment-la. Tinha uma expresso ansiosa no rosto.
A estranha sensao de autmato desapareceu naquele momento, e o corao 
da jovem comeou a bater descompassado, a ponto de deix-la quase sem ar.
Nenhum deles conseguia falar, enquanto se olhavam mutuamente. Afinal, 
recobrando o domnio sobre si, o duque perguntou:
Quer sentar-se?
A voz macia e quente chegou aos ouvidos da jovem como uma bno, e 
ento, no se aguentando mais de p, o seu corpo afundou numa das
confortveis poltronas de couro.
- Papai... disse-me para vir... procur-lo - disse Bettina com voz 
entrecortada e quase num murmrio.
- Ele deve ter-lhe dito que eu gostaria de t-la como minha esposa?
- Sim... ele me disse isso.
- Se quiser casar-se comigo, asseguro-lhe que farei todo o possvel para 
torn-la feliz.
- Obrigada... mas posso pedir-lhe um favor? - perguntou a jovem com voz 
temerosa.
- Naturalmente - respondeu o duque, olhando-a, intrigado, enquanto se 
sentava em outra poltrona.
- Eu desejaria que tudo fosse mantido em segredo... at voltarmos  
Inglaterra
- Sugesto muito plausvel - respondeu o duque. - E j foi feita pelo seu 
pai.
84
- Eu desejaria que tudo fosse mantido em segredo... at voltarmos 
Inglaterra.
Ele no contou que sir Charles acrescentara:
- Pelo amor de Deus, Varien, no fale a ningum sobre o casamento, antes
de chegarmos em casa. Daisy e Enid massacrariam a pobre menina!
- Naturalmente no faremos nada sem que isso seja antes resolvido entre 
ns. Quando chegarmos  Inglaterra, eu gostaria de que voc fosse 
conhecer o Castelo de Alveston, na poca do Natal. Seu pai certamente 
gostaria de cavalgar meus cavalos, e acho que voc tambm gostar deles.
- Ser muito agradvel - exclamou a jovem timidamente
- Ento isso j est acertado. Manteremos um relacionamento absolutamente 
objetivo at chegarmos ao castelo. L, faremos os nossos planos!
- Obrigada... muito obrigada.
Os dois se olharam e porque Bettina estava encabulada, seus clios
escuros contrastavam ainda mais com sua palidez.
Compreendendo o embarao da moa, o duque levantou-se e mudou de assunto.
- vou ver o capito e dizer-lhe para dar uma licena especial a Jack
Sutton, a fim de que possa ir a Southampton pedir a mo de Rose a seus
pais.
-  muita bondade sua. Rose ficou to feliz, quando lhe contei como o 
senhor  mavarilhoso, que acabou at chorando. Mas eram lgrimas de 
alegria e no de tristeza, como ontem  noite.
- Diga-lhe, pois, o que estou planejando. Acho que devemos dar-lhes um 
bom presente de casamento para mobiliarem seu novo lar.
-  - Eu gostaria muito de fazer isso, mas...
O duque ficou aguardando que ela terminasse.
- mas acho que tenho pouco dinheiro... Para ser bem franca, no tenho
nenhum!
- Mas eu tenho muito - disse o duque. - Voc se esqueceu de que durante o
casamento eu vou dizer: "... e todos meus bens terrenos eu te ofereo"?
Bettina percebeu que ele a estava provocando pela maneira
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solene como tinham falado at aquele momento. Assemelhava-se ao modo
de falar de Edgard. O duque riu e acrescentou:
- Voc acredita que possuo o suficiente para ns dois, no  mesmo?
Ouvindo o apito do barco, Bettina apressou-se a dizer:
- Alteza, acho melhor ir-me embora. Se algum souber que estive aqui na 
sua sala, poder achar... estranho.
- Sim, voc tem razo. Vamos guardar nosso segredo at chegarmos ao 
castelo.
- Muito obrigada, novamente - disse a jovem, virando-se para abrir a 
porta. Nisso, suas mos se tocaram. Esse toque provocou-lhe um
estremecimento que a atravessou da cabea aos ps.
Sem olh-lo, ela se retirou rapidamente. Quando ia chegando  sala de 
refeies estava, ainda, to presa a suas emoes, que no percebeu a 
presena de um vulto de p, junto  porta.
- Onde voc esteve? De onde est vindo? - perguntoulhe lorde Edgard, 
muito zangado e segurando-a fortemente pelo brao.
- Est me machucando! - disse Bettina. espantada. Deixe-me passar!
- Quero falar com voc - replicou o lorde, empurrando-a e obrigando-a a 
entrar na biblioteca.
No havia ningum l, e talvez por isso ele fechou a porta e encostou-se 
nela, para impedir que a jovem sasse.
- O que estava fazendo na sute particular de Varien? Zangada com aquelas 
maneiras prepotentes, Bettina ergueu
a cabea e perguntou:
- O duque queria falar comigo! H algum mal nisso?
- Qualquer coisa referente a Varien pode ser malfica. A jovem no disse 
nada, e ele continuou:
- Imagino que foi interceder por aquela criada imoral. Tambm no importa 
o que Varien diga; quando chegarmos, falarei com a governanta do castelo.
- Como pode ser to cruel? Rose no  uma moa imoral s porque estava 
beijando seu noivo, o marinheiro!
- Isso to i o que ela disse, mas eu presenciei a cena. De qualquer modo
no  de se espantar. Este iate  um antro de imoralidade, e eu no quero
v-la misturada a isso.
- Est exagerando - replicou Bettina. enquanto se lembrava das cenas 
entre lady Daisy e lady Tatham, que justificavam as palavras de lorde 
Edgard.
Adivinhando o pensamento da jovem, ele disse, com um sorriso 
desagradvel:
- Exatamente! E se sua me estivesse viva, jamais permitiria que voc 
estivesse aqui. convivendo com essas ladies, que no passam de 
prostitutas.
Bettina espantou-se, pois nunca ouvira algum usar um linguajar como 
aquele. Por isso, ficou zangada e disse, com raiva:
- Eu no quero discutir isso com o senhor. Deixe-me passar, eu preciso ir 
ter com o meu pai.
Ela deu um passo  frente, mas ele no arredou p.
- Oua, Bettina, voc  muito jovem e inocente, e eu acho errado seu pai
t-la trazido para um lugar destes.
- Olhe aqui, no permito que critique meu pai! Agora afaste-se, porque 
ele est me esperando.
- Somente quando eu acabar de lhe dizer o que preciso.
- No quero mais ouvi-lo, e se quiser saber a minha opinio, no se deve
cuspir no prato em que se come.
- No que concerne ao meu meio irmo, essas regras de moral no se
aplicam.
Diante da sua expresso de surpresa, ele prosseguiu:
- Quando ajudei voc em Dover, percebi que era uma moa inocente e
ingnua, que desconhecia as maldades deste mundo, principalmente as desta
parte regida pelo meu meio irmo.
Depois de breve silncio, Edgard continuou:
- S concordei em vir porque achei que poderia impedila de se misturar 
com essas mulheres e esse grupo licencioso que ele chama de amigos.
- Foi... muita bondade sua - disse ela, meio convencida por aqueles 
argumentos. - Porm, meu pai est comigo, e cuida de mim como sempre o 
fez.
- Ele no poder evitar que oua essas conversas e presencie certas 
cenas. Se voc porm, encontra ainda desculps
87
para os participantes desta viagem, ento  porque j foi contaminada
e est para cair na lama em que se esfregam.
Raciocinando, ela concluiu: "Edgard est completamente cego pelo dio
que vota ao meio irmo e  sociedade".
Na vspera, essa conversa t-la-ia perturbado e amedrontado. Agora, 
sentia-se livre para no mais se importar com o que ele dissesse ou 
pensasse. Feliz com tal pensamento, ela disse em tom conciliatrio:
- O senhor est se aborrecendo em vo. As coisas no so to ruins assim. 
Agradeo-lhe por querer proteger-me de ser corrompida, mas lhe asseguro 
que estou a salvo, e, como papai, no costumo recordar as coisas ms, 
porm somente as boas.
E, sorrindo para ele, acrescentou:
- Agora, deixe-me ir, papai est  minha espera.
- Seu pai ter de esperar. Quero antecipar um pedido que eu pretendia 
fazer, quando chegssemos  Inglaterra.
- Sim, milorde, mas poderemos conversar mais tarde; preciso mesmo ir.
Em tom obstinado, ele insistiu:
- No! Primeiro voc vai me ouvir!
Meio desesperada, Bettina buscava uma forma para impedilo de se 
pronunciar. Mas Edgard no saa da porta, e ela teve de ouvi-lo.
- Quero que voc se case comigo, Bettina. Ensinar-lhe-ei tudo o que 
precisa saber sobre a vida. No haver mais perigo de ter contato com a 
escria de uma sociedade dissoluta.
Bettina prendeu a respirao. As palavras tinham sido ditas, e ela 
precisava dar uma resposta.
- Eu... eu me sinto muito honrada. Mas, para ser honesta, devo-lhe dizer 
que... no posso casar-me com o senhor.
- Ora! No seja ridcula. Voc se casar comigo. No s porque o quero, 
mas porque tambm  o desejo de seu pai. Ele j deixou bem claro que me 
apreciaria como genro.
- Lamento contradiz-lo, mas tem de saber... que me  impossvel casar 
com o senhor.
Para sua surpresa, surgiu um sorriso indefinvel nos lbios finos de 
Edgard.
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- Voc  muito jovem. Bettina, e posso compreender como se sente diante
de uma proposta de casamento. Procure acostumar-se com a ideia de vir a
ser minha mulher, pois casaremos logo no incio do prximo ano.
Sem conseguir controlar-se por mais tempo, a jovem gritou:
- No! No!
Sorrindo novamente, lorde Edgard disse:
- Pode ir agora. V falar com seu pai. Ele lhe explicar que voc no 
arranjaria melhor candidato.
E. aproximando-se bem da moa. acrescentou:
- Sei que isso pode faz-la sentir-se intimidada, ao contrrio de muitas 
outras mulheres, que ansiavam por casar-se comigo. Tenho certeza, 
entretanto, de que poderei transformla na esposa ideal para me ajudar em 
meus planos. Naturalmente, vai levar algum tempo, e depender muito dos 
seus esforos. Voc vai compreender e apreciar a luta em que me empenho 
h tanto tempo.
Falava de maneira pomposa e convincente, para a qual Bettina no achava
resposta. Afastou-se afinal da porta e abriu-a para a jovem passar.
- V para junto de seu pai. Ver como ele vai ficar satisfeito com as 
novidades.
Como se tivesse sido empurrada, a jovem correu para sua cabine e, abrindo
a porta com violncia, atirou-se nos braos do pai que a esperava.
- Oh, papai! Papai! - exclamou ela, chorando.
- Eu sabia que seria uma grande emoo, minha boneca! Agora voc vai ter 
de se acostumar com a ideia de vir a ser uma duquesa. E Deus sabe como me 
orgulho de voc.
- No... no  o duque...  lorde Edgard! Oh, papai... ele disse que eu 
tenho de me casar com ele... e que voc... ficar
muito contente!
No primeiro instante, sir Charles olhou espantado para a filha, mas em 
seguida comeou a rir.
- Ah! Ento lorde Edgard apareceu para estragar tudo!  a coisa mais
engraada que jamais ouvi, e  bem prpria dele. Aquele beato sujo... ele
merece uma lio!
Recuando, espantada, Bettina disse:
89
- Mas, papai... voc mesmo queria que eu me casasse com ele!
- Sim, mas s at o momento quando percebi que voc poderia aspirar a
algo bem mais elevado - disse sir Charles francamente.
Em voz baixa, ela comentou:
- Na realidade, ento... existe algo verdadeiro naquilo que lorde Edgard 
diz sobre voc e seus amigos.
- No me conte o que ele disse. Conheo perfeitamente o ponto de vista de 
Edgard. Esquea-o! Somente Varien nos interessa.
- Sim. eu sei... mas lorde Edgard  muito prepotente, e quando cisma com 
uma coisa consegue ser extremamente obstinado.
O leve tom de temor na voz da jovem no passou despercebido ao pai.
- No pense mais nele, minha querida. Edgard no pode atingi-la, e voc
pouco o ver, quando estiver casada. Raramente ele aceita os convites de 
seu meio irmo.
- Ele s aceitou participar desta viagem quando soube que eu viria.
- Ah, foi isso ento! Bem, ao menos em uma coisa ele tem bom gosto. 
 claro que voc  bem diferente do tipo de pessoas com quem ele convive.
- Hoje cedo, ainda, conclu que as suas ideias so boas, mas ele as 
manobra da maneira errada - comentou a jovem.
- No, suas ideias no so to boas. Ele insulta seu meio irmo, mas 
ningum sabe melhor do que eu quo generosamente Varien ajuda as pessoas: 
o ducado de Alveston  um exemplo disso.
- Como assim? - perguntou a jovem.
- Varien construiu mais orfanatos e asilos do que qualquer outro grande 
lorde do interior da Inglaterra. Ele mantm vrios hospitais, e as listas 
que assina encheriam as folhas de um livro inteiro.
- Mas, ento, por que lorde Edgard diz coisas to horrveis a seu 
respeito?
- Minha querida, voc desconhece o nono... ou dcimo
nandamento, sobre ter inveja do seu vizinho?
- Voc acha que lorde Edgard tem cimes?
- Naturalmente! Ele no gosta do irmo, porque ele  o duque. A me de 
Edgard j odiava Varien, por ser o herdeiro. Sempre o tratou mal, e 
procurou fazer com que pai e filho se desentendessem. Felizmente, no o 
conseguiu.
- Agora, sim, estou compreendendo uma poro de coisas - murmurou Bettina 
vagarosamente.
- E justamente porque Varien aprecia as boas coisas da vida: 
esportista, amigo do prncipe de Gales, considerado um verdadeiro
cavalheiro entre os nobres,  que Edgard foi para o outro extremo.
Depois de uma curta pausa, sir Charles continuou:
- Por isso, tambm, ele procurou amigos entre a ral abatida pela 
misria, na qual ningum est interessado. Ao menos entre eles, no meio 
dela, ele consegue brilhar, como Varien brilha em outras rodas.
- Eu' tenho pena dele, papai.
- No  necessrio. Segundo seu prprio conceito, ele se julga o mximo.
E, por isso, jamais lhe passaria pela cabea que voc pudesse recusar seu
pedido de casamento.
Lembrando-se da cena com Edgard, a jovem reconheceu que o pai tinha 
razo.
-  Mas... seria bom voc conversar com ele, papai.
- Naturalmente... mas s quando chegarmos  Inglaterra.
- Claro. O duque e eu combinamos guardar segredo at chegarmos ao castelo.
Seria para mim muito difcil se os outros convidados soubessem...
-  o que eu tambm acho. E ningum vai suspeitar de coisa Alguma. Minha
velha ama sempre dizia que "em boca fechada no entra mosquito". Alm
disso, mantenha-se longe de Edgard.
No era, porm, fcil conseguir isso. Lorde Edgard cercava-a de todas as
maneiras, tentando ficar a ss com ela, e sentia-se frustrado por no o
conseguir. Por outro lado, era muito difcil esconder-se num iate ou
permanecer sempre na companhia dos outros hspedes.
Desde o incio da viagem, Bettina evitara lady Daisy e lady
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Tatham, porque a deixavam chocada com suas atitudes volveis e at
vulgares, em relao ao duque.
Agora, ento, ao v-las adulando-o, pavoneando-se diante dele, dizendo 
coisas que sempre tinham um segundo sentido, e lanando-lhe olhares
convidativos, ficava com uma sensao desconfortvel e um sentimento que
no conseguia de terminar. E alm disso, faziam-na sentir-se
insignificante. Ela no saberia usar aqueles artifcios: ser sofisticada, 
picante e. ao mesmo tempo, provocante e tentadora.
De noite, no silncio da cabine, Bettina ficava cogitando sobre toda 
aquela situao.
No havia dvida de que o duque tambm odiava seu meio irmo. Certamente, 
por isso, chegara  concluso de que o melhor seria casar-se outra vez, 
para ter um herdeiro direto.
Em outras circunstncias, naturalmente no a teria escolhido para esposa. 
Naquele momento, porm, quando ficara furioso com Edgard, por meter-se em 
sua vida e at interferir com seus empregados, ela  que estava ali,  
mo.
Ao pensar nisso, Bettina sentiu-se profundamente frustrada.
Na noite anterior, tinham deixado as calmarias do Mediterrneo para, 
depois de atravessarem o estreito de Gibraltar, enfrentarem um bravio mar 
aberto e, a seguir, os ventos frios do golfo de Biscaia.
Ela vestiu seu casaco de l, com capuz enfeitado de pele. e saiu para o 
convs, pois sabia que quela hora ningum estaria por l. O ar estava 
gelado, mas, quando olhou para o cu, viu-o coberto de estrelas 
brilhantes, tal como naquela noite, quando as ficara apreciando com o 
duque.
Lembrou-se de como ele fora diferente ento, compreensivo, srio e pronto 
a ouvir suas histrias, que poderiam at parecer-lhe infantis.
Repentinamente, percebeu como desejava que seu casamento desse certo. 
Pretendia fazer o duque feliz, com uma felicidade tranquila, dentro de um 
casamento sem brigas nem discusses, como as que ele certamente 
enfrentara com sua primeira esposa.
Lamentou que sua me no estivesse viva, pois ela compreenderia
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seu estado de esprito. Olhando para as estrelas, entalmente
ergueu uma prece.
"Ajude-me, mame. Ajude-me a cuidar dele e a agradar-lhe."
Se ao menos tivesse a me ali, para conversarem... Para se aconselhar com 
ela sobre o que um homem como o duque espera de sua esposa e da me de 
seus filhos...
Sentindo um arrepio, porque tudo aquilo lhe parecia complicado demais, 
olhou ainda uma vez para o cu e foi rapidamente para a cabine, onde 
permaneceu muito tempo deitada, sem conseguir dormir.
O mau tempo trouxe um inevitvel alvio para Bettina, pois lady Daisy e 
lady Tathain no saram mais de suas cabines. A sra. Dimsdale e mais duas 
senhoras ainda tentaram permanecer na sala, mas depois retiraram-se 
definitivamente. Mais uma vez, Bettina era a nica mulher a comparecer s 
refeies.
Os cavalheiros mimavam-na, dirigindo-lhe elogios e tratando-a como a uma 
criana precoce.
Ela se divertia com aquilo, mas s vezes olhava para o duque,  cabeceira 
da mesa, para ver se ele no estaria desaprovando o seu comportamento.
Por outro lado, percebia como lorde Edgard a olhava o tempo todo. 
estranhando cada sorriso ou risada que ela dava espontaneamente.
Os outros cavalheiros provocavam-no:
- Vamos l, Edgard! Como pode se aborrecer com isso? Afinal, a srta. 
Charlwood foi a nica companhia feminina que nos restou; deve portanto 
aceitar que compartilhemos de sua companhia.
Ele no respondia, mas ficava ainda mais sisudo. Sabendo como ele sofria 
com aquilo, Bettina permitiu-lhe que lesse um dos seus panfletos, depois 
da refeio, ali na sala, onde ficaram a ss, mas com os criados passando 
a toda hora.
Fingindo ler, ele lhe disse em voz baixa e zangada:
- Voc est me evitando!
- Sim... voc me assustou com sua atitude, outro dia.
- No tive inteno. Voc, porm, precisa aprender a me obedecer, 
Bettina! - insistiu ele, e prosseguiu: - Para um
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casamento ser feliz, a mulher precisa submter-se ao marido E ainda
mais, ns no frequentaremos ambientes onde existam mulheres como lady
Daisy e lady Tatham, cujos maridos complacentes ficam em casa, enquanto 
elas se divertem com seus amantes.
com pacincia e boas maneiras, a jovem tentou acalmlo, mas ele foi se 
tornando mais nervoso e grosseiro. Acabou dizendo:
- Todas as mulheres so iguais, e voc no  uma exceo. Mas eu lhe 
ensinarei a apreciar os verdadeiros valores da vida e as pessoas que no 
so hipcritas e no escondem sua licenciosidade sob uma mscara 
sorridente.
Cansada, Bettina disse:
- Estou esperando para ouvir a leitura de seu panfleto. Voc o ouvir, 
quando eu estiver pronto para l-lo. Uma
coisa deve ficar bem clara, agora, Bettina, eu sou o seu senhor. Eu 
decido o que se deve e no se deve fazer, e voc ter de obedecer.
No aguentando mais tanta insolncia, a jovem levantou-se, olhou-o 
fixamente e saiu quase correndo da sala, para no lhe dar a chance de
impedi-la.
Na manh seguinte, ela sentiu-se aliviada, quando soube que lorde Edgard 
no iria comparecer ao almoo, porque estava passando mal.
O Jpiter enfrentava novamente uma tormenta, e navegava com dificuldade 
atravs dela.
Mesmo assim, Bettina decidiu dar uma volta. Agasalhouse bem e ps o 
impermevvel por cima das roupas. Devagar e com muito cuidado, foi 
avanando pelo convs. As ondas eram enormes, e cada uma delas parecia 
querer sobrepujar as outras em altura e fora.
Bettina queria ver de perto como a proa ao Jpiter enfrentava o mar 
bravio, e seguiu ento bem devagar e cuidadosamente junto  parede. As 
ondas verdes, com suas cristas brancas, pareciam drages querendo devorar 
o Jpiter.
Vendo que o tempo piorava e sentindo frio, ela se virou para voltar, mas 
seu p escorregou. Teria cado se dois braos fortes no a tivessem 
amparado.
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Depois do primeiro instante, viu com alvio que se tratava do duque. O 
tumulto do mar e o assobio do vento no a deixaram perceber que ele 
estivera atrs dela o tempo todo.
Varien segurou-a com fora de encontro ao peito, e quando seus olhares se 
cruzaram, ela sentiu o corao bater descompassado.
Por um momento, tudo em volta pareceu serenar, e era como se apenas
existissem eles dois. S ento percebeu que se apaixonara pelo duque!
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CAPITULO VI

Satisfeita com o trmino da viagem, Bettina foi ao convs apreciar a
entrada no porto de Southampton.
Um desagradvel clima de tenso tinha se instalado no iate desde que, em 
guas mais calmas, as duas ladies abandonaram o leito. E isso por que, 
diante da nova atitude do duque, cada uma delas achava que ele dera 
preferncia  outra.
Varien passava, agora, a maior parte do tempo na ponte de comando ou nos 
seus aposentos particulares.
De qualquer maneira, o cime e a suspeita entre as duas lindas rivais 
produziam um efeito nefasto em todos. Bettina jamais imaginara que iria 
ficar alegre com a volta  Inglaterra, mas, diante daquele ambiente, deu 
graas a Deus quando avistaram terra.
Tambm estava preocupada com a insistncia de lorde Edgard em dizer que 
iriam se casar, e sua atitude cnica diante das suas negativas.
"Papai tem de falar com ele logo que chegarmos  Inglaterra", pensava a 
jovem. Mas sentia-se envergonhada pelo fato de, antes, o pai ter 
encorajado lorde Edgard como a um digno pretendente.
Desde que o duque pedira sua mo, agradecia aos cus por no ter de se 
casar com Edgard.
Observando suas feies sempre contradas e ouvindo seus violentos 
improprios contra o meio irmo e seus amigos. sentia-se aliviada por ter 
escapado de suas mos.
Como iria suportar aquilo, ano aps ano? E no entanto, se no fosse pelo 
duque, teria sido obrigada a aceit-lo.
Estava feliz por saber que, depois de se despedir dos outros convidados, 
ficaria a ss com o pai e o duque. Sua ansiedade por esse momento 
aumentava a cada instante.
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At a Inglaterra, apesar do cu sombrio, parecia envolta pela luz solar.
"Eu o amo! Eu o amo!", pensava a jovem, emocionada.
Sim, agora reconhecia ter se apaixonado por ele desde o primeiro 
instante, mas que jamais percebera esse sentimento, porque nem sequer
ousava pensar naquilo.
Ele era to poderoso e imponente, que chegava mesmo a causar-lhe temor.
Distrada com esses pensamentos, assustou-se quando ouviu uma voz dizer-
lhe asperamente:
- Ah! Ento  aqui que voc vem se esconder?
Sem olh-lo, pois sabia que iria encontrar uma feio de desagrado, 
Bettina s comentou:
- Afinal estamos em casa!
- Seu pai contou-me que vocs pretendem passar o Natal no castelo.
- Sim.
- Vocs no iam para Londres? Pretendia telefonar-lhe amanh cedo.
- Seguiremos direto para o castelo.
- Eu no quero que voc v para l! - disse ele com voz imperiosa.
- J est tudo combinado - replicou a jovem.
- vou conversar com seu pai, no trem, para persuadi-lo a no ir. Temos 
muitos assuntos para tratar, Bettina, e quanto antes marcarmos o dia do 
nosso casamento, melhor.
Todos viajariam para Londres no trem particular do duque, mas em 
Guildford, Varien, seu pai e ela desceriam para ir ao castelo.
Imaginando que lorde Edgard ainda poderia armar uma cena no trem, diante 
de lady Daisy e lady Talham, Bettina encheuse de coragem e disse:
- Tenho de lhe dizer uma coisa, mas  um segredo, e o senhor ter de 
jurar que no vai tocar nesse assunto diante das outras pessoas da 
comitiva do duque.
- Por mim, no pretendo mais trocar uma palavra sequer com qualquer uma 
delas. S posso assegurar-lhe que, no futuro, nem voc nem eu teremos
contato com esses amigos de
97
Varien. S se for imprescindvel!
- Ento promete guardar segredo? - insistiu Bettina.
- No sei o que pretende contar-me, mas dou-lhe minha palavra, se faz 
tanta questo.
Tomando flego e coragem, Bettina disse:
- Eu no posso casar-me com o senhor... porque vou casarme com o duque!
Finalmente tinha dito o que precisava, mas aguardava, temerosa, a reao 
dele.
Houve alguns instantes de silncio total, e ento, estupefato, lorde 
Edgard perguntou:
- Ser que estou ouvindo bem? Varien pediu-a em casamento e voc aceitou?
- Sim!
- Jamais imaginei que voc fosse... - comeou ele a dizer furioso, e
prosseguiu: - No acredito que voc possa dar
qualquer palpite nesse assunto.  a vontade do seu pai. E Varien quer me
impedir de ser o seu herdeiro.
Bettina no respondeu. Apenas olhava para um ponto distante, temendo 
mover-se e at pensar.
Depois de alguns momentos, Edgard disse:
- Eu deveria ter imaginado que uma coisa dessas iria acontecer.
Dizendo essas palavras com raiva incontida, afastou-se abruptamente. J 
instalada no trem, Bettina ouviu o duque dizer:
- Prontos para partir! Lorde Edgard est no trem?
- Ele me informou, Alteza, que no iria conosco - respondeu um dos
criados.
O duque ergueu as sobrancelhas, mas no fez nenhum comentrio. Bettina
sentiu um grande alvio em pensar que no teria mais de enfrentar lorde
Edgard.
Os empregados serviram champanhe, e lady Daisy sentouse ao lado do duque.
- Espero, querido Varien, que voc esteja planejando uma bela festa de 
Natal no castelo, e pretendo ser uma das principais convidadas.
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Ela falou como se aquilo tudo j fosse certo. O duque, porm, replicou:
- Ainda no decidi nada sobre o Natal. Primeiramente, quero chegar em
casa e ver como se desenrolaram as coisas na minha ausncia.
- Se estiver esperando um convite do prncipe - comentou lady Daisy -,
posso informar-lhe que ele vai para Sandringham, ficar muito em familia. E
voc sabe to bem quanto eu que, quando a famlia toda se rene l, no
h lugar para outras pessoas na casa.
Depois de curto silncio, ela acrescentou:
- Voc  um felizardo em possuir um castelo to grande. Levantando-se, o
duque apenas disse:
- vou ver se minha secretria j trouxe a correspondncia, por isso no 
contem comigo para o bridge.
Lady Daisy seguiu-o com um olhar perplexo e os lbios apertados.
com muita diplomacia, sir Charles sugeriu que formassem as mesas para o 
jogo.
Bettina ficou satisfeita por no precisarem dela, e sentou-se numa
poltrona, com um livro na mo. No conseguiu ler. Os pensamentos
tumultuavam-lhe na cabea.
O duque voltou para o lanche, mas o trem j estava chegando a Guildford.
- No sabia que Charles iria com voc para o castelo comentou lady Daisy.
Bettina compreendeu que, para aquela senhora, ela no representava nada.
- Sim, Charles vai ajudar-me a exercitar os cavalos, pois devem ter 
ficado gordos e preguiosos durante minha ausncia.
- Mas o cho vai estar muito duro para caarem - observou ela.
- No h perigo, existe mais neve do que gelo - contestou o duque, 
otimista.
- Volte para Londres quanto antes - insistiu lady Daisy -, e no se 
esquea de me convidar para o Natal.
Lady Tatham percebeu o mau resultado das investidas da rival e, por isso, 
usou outra estratgia.
99
- Foi uma viagem maravilhosa, Varien! No sei como agradecer-lhe por me
convidar para assistir a esse magnfico evento histrico. - E, encarando-
o com seus lindos olhos verdes, prosseguiu: - Pretendo dar-lhe algo muito 
especial para comemorar os momentos felizes que passamos juntos. At 
breve, querido!
O olhar de lady Daisy soltava chispas de dio, e, naquele momento, como o 
trem parasse, o duque teve de se despedir rapidamente de todos.
Sir Charles e Bettina fizeram o mesmo e, descendo do trem, dirigiram-se 
para o local onde as carruagens do duque esperavam. Havia uma muito 
bonita para eles e outra, maior, para os empregados e a bagagem.
A paisagem do campo estava linda com toda aquela neve.
- Foi uma festa muito bonita, Varien - comentou sir Charles, acendendo um 
cigarro -, mas como a maioria delas, demorou demais.
- Concordo com voc. S depois me lembrei de que deveria ter enviado meus 
hspedes de trem, partindo de Marselha. S mesmo voc e Bettina gostaram 
do golfo de Biscaia.
- Bettina  to boa navegante quanto voc, Varien - disse sir Charles, 
orgulhoso.
- E  mais um ponto que temos em comum - replicou afetuosamente o duque, 
olhando para a jovem.
Ela ficou imaginando quais seriam os outros pontos, mas, como era tmida, 
limitou-se a sorrir.
- Ser que Daisy tinha razo e no poderemos caar? comentou sir Charles.
- No o creio, mas logo que chegarmos ficaremos sabendo - disse o duque. 
-  extraordinrio como as mulheres tm cimes dos esportes masculinos.
Bettina determinou a si mesma nunca incidir em tal erro. Muitos anos 
antes, sua me lhe dissera:
- Fico to contente quando seu pai faz passeios ao ar livre!  muito mais 
saudvel para ele do que estar sentado numa mesa de jogo horas a fio, 
fumando um cigarro atrs do outro.
- , mas ele deixa voc em casa nessas ocasies, mame
- replicara a jovem.
100
- Ele sempre volta, contando os triunfos obtidos, e isso  o que importa, 
minha filha.
"Como eu gostaria de lembrar todas as coisas que mame disse", pensou 
Bettina, mas concluiu que seu amor pelo duque e o instinto feminino a 
guiariam.
Aps uns trs quartos de hora de viagem, depararam repentinamente, depois 
de uma curva da estrada, com o castelo. A moa ficou extasiada. Escutara 
muitos comentrios a seu respeito, mas o que via era muito mais bonito e 
imponente do que imaginara.
A bandeira do duque tremulava na torre mais alta, cercada por muitas 
outras menores, que se completavam com uma srie de cpulas, chamins e 
figuras de pedra. Alm do mais, havia muitos balces e terraos. O 
castelo era rodeado por muros e muretas, jardins e bosques, atravs dos 
quais corria um regato cristalino que desaguava num lago.
A jovem procurava captar ansiosamente cada ngulo da paisagem. Quando 
entraram no castelo, um batalho de criados uniformizados e enfileirados 
aguardava-os para lhes desejar as boas-vindas. No grande hall de mrmore 
havia uma linda escada de carvalho.
Quando passaram ao salo de visitas, enorme como um salo de baile, 
Bettina comeou a ficar com medo.
Uma coisa era estar casada com o duque, confinados num iate, lindo e 
grande, quando comparado a muitos outros. Mas era bem diferente imaginar-
se a senhora daquele prdio imenso, com aquela horda de empregados, seus 
vastos domnios e todas as outras ramificaes dos bens do duque.
Vou ficar perdida... sufocada! pensou Bettina, em pnico.
Naquele instante sentiu o duque colher sua mo e dizer com voz sonora e 
profunda:
- Seja bem-vinda ao meu lar, Bettina! Desejo que voc o ame tanto quanto 
eu!
Um arrepio percorreu-lhe a espinha ao toque daquela mo firme e do tom 
carinhoso das palavras.
Mas naquele momento ela compreendeu que, ao lado de Varien, tanto moraria 
numa barraca quanto num castelo, ou no alto do Himalaia.
- Acho que voc est querendo um drinque, meu caro
101
 Charles. Mas Bettina, certamente, prefere um ch bem quente, no  mesmo?
Sorrindo, ele sugeriu:
- Por que voc no sobe e tira a capa e o capuz, para ficar mais  
vontade?
- Sim,  claro - concordou ela.
O duque levou-a at o hall e deu instrues ao camareiro-mor.
- Diga  sra. Kingdom para instalar a srta. Charlwood no quarto do 
jardim, e que sir Charles fique alojado perto dela.
- Sim, Alteza.
O camareiro escoltou Bettina at o topo da escada, onde a governanta, 
vestida de preto e com uma grossa corrente de prata ao pescoo, aguardava 
ordens.
- A srta. Charlwood deve ficar no quarto do jardim, sra. Kingdom.
A governanta assentiu, e Bettina estendeu-lhe a mo.
- Que maravilha  este castelo, sra. Kingdom!
-  mesmo, de fato, senhorita.
Depois de percorrer um longo corredor, ornamentado com mveis e peas 
muito bonitas, elas chegaram ao quarto indicado por Varien, para Bettina.
No era muito grande, mas decorado com muito bom gosto. As paredes 
estavam revestidas de papel chins com grandes flores pintadas, enquanto 
o cortinado de tule da cama tambm apresentava flores bordadas.
- Que lindo! - exclamou a jovem, vendo flores por todos os lados.
- Esta  a ala elisabetana, que Sua Alteza mandou reformar h pouco 
tempo. Fica muito mais bonito no vero. Tm uma escada que d para um 
jardinzinho, e os muros so cobertos por uma linda trepadeira de lilases.
Bettina bem sabia por que o duque havia escolhido aquele cmodo para ela.
- Deve ser maravilhoso!
- Agora, naturalmente, est tudo cheio de neve - disse a governanta 
sorrindo.
- Como  quente aqui dentro!
- Sim, Sua Alteza insiste em que se mantenham as lareiras todas acesas nesta poca do ano.
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- Em todos os cmodos? - indagou a jovem, admirada.
- Sim, senhorita. Isso conserva a temperatura elevada, e ns no temos 
resfriados nem gripes, como acontece em outras casas.
- Certamente  um grande luxo.
- Ficaramos humilhados se nossos hspedes no tivessem todo o conforto
possvel - replicou a governanta.
Bettina sabia que, quando a criadagem usa a palavra nosso' mencionando o 
que pertence aos patres,  porque est satisfeita.
A sra. Kingdom retirou-se, e Bettina ficou imaginando como o duque era 
amvel em ter escolhido aquele aposento para ela, sabendo como gostava de 
flores. Tambm sobre a penteadeira havia, novamente, um buque de 
orqudeas brancas.
Ser que ele as encomendou pelo telgrafo ou  pura coincidncia? "
Uma criada de quarto veio oferecer seus prstimos, mas Bettina j estava 
pronta para descer.
Encontrou o caminho de volta ao salo, e a viu uma mesa, ao lado da 
lareira, com um ch completo e bandejas cheias de guloseimas.
- Estamos esperando-a para servir-nos - disse o duque alegremente. - 
Agora voc precisa comear a treinar para ser anfitri.
Bettina corou com esse comentrio, mas serviu o duque e a si prpria. Sir 
Charles preferiu um usque.
Vendo o duque de p, na sua frente, e de costas para a lareira, sir 
Charles comentou:
- Voc est querendo dizer alguma coisa, Varien?
- J sei o que voc quer que eu diga, Charles, mas prefiro antes discutir 
os detalhes da cerimnia com Bettina. Depois participaremos o resultado.
- Voc  muito generoso - sorriu Charles.
- Ora! E por que no?  do casamento dela que vamos tratar, e, sendo ela 
a pessoa mais importante, tudo deve ser feito de acordo com o seu gosto.
- No estou me queixando. Ao contrrio, estou to feliz por
103
saber que as duas pessoas que mais amo vo se unir...
- Acho que Bettina quer descansar um pouco, antes do jantar. Mas, depois, 
ficaria muito tarde para lev-la a dar uma volta pelo castelo, e eu mesmo 
quero mostrar-lhe tudo.
- Naturalmente, mas tambm pode ficar para amanh.
- Mas  justamente isso que eu queria lhes dizer. Amanh serei obrigado a 
ir a Londres, e s voltarei tarde - disse o duque com um leve tom de 
impacincia.
- Ah! que pena! Mas no se preocupe - disse sir Charles.
- Voc j poder entreter-se um pouco com os cavalos disse o duque, e, 
voltando-se para a moa, perguntou: - Voc sabe cavalgar, Bettina?
- Sim, aprendi com papai, e no colgio cavalgvamos de vez em quando.
- H muitos cavalos bons aqui, e voc pode escolher - disse ele 
carinhosamente  jovem, e, dirigindo-se a sir Charles, comentou: - Amanh 
no haver caada, mas se no houver muito gelo poderemos realizar uma na 
quinta-feira.
- Ento, amanh s daremos uma volta por a. Vamos ver se Bettina no se 
esqueceu das minhas lies.
- Gostaria muito de ficar aqui e acompanh-los, mas tenho mesmo de ir a 
Londres.
Imaginando que ele iria encontrar-se com lady Daisy e lady Tatham para 
lhes anunciar seu casamento, Bettina comeou a sentir cimes, e 
perguntou-se, apreensiva:
"Ser que essa amizade com as duas continuar, mesmo depois de estarmos
casados?
"Tambm, ele  to atraente, que certamente sempre haver mulheres como 
elas. E o que poderei fazer, se o amo tanto?
Repentinamente a imensido daquele castelo e toda aquela incomparvel 
riqueza pareceram-lhe sufocantes. Teve vontade de desaparecer dali.
"E se eu o desapontar? E se eu no souber faz-lo feliz?", pensou 
desanimada.
Quando, porm, desceu para o jantar e o viu com uma roupa muito elegante, 
pensou que qualquer sacrifcio valeria a pena para tentar ser feliz ao 
seu lado.
Bettina estava usando um dos seus vestidos mais simples, e,
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para enfeit-lo um pouco, colocara duas orqudeas no decote.
- Elas estavam no meu quarto, e lembrei-me das que voc me ofereceu por 
ocasio da festa do quediva. Fiquei muito contente por receb-las, pois 
no tinha nenhuma jia para usar.
- No me esqueci, e teria lhe mandado alguma jia, se no tivesse
resolvido dar-lhe outra coisa.
Enquanto falava, ele pegou uma caixinha de cima da lareira e estendeu-a a
Bettina.
- Pertence  coleo Alveston, e achei que gostaria de usla, enquanto
no lhe compro uma outra que ser somente sua.
Bettina abriu a caixa e soltou uma exclamao de surpresa, pois era um
maravilhoso buquezinho de flores, todas em pequenos diamantes.
- Que lindo!
- Tive a impresso de que seria de seu gosto. Foi feito por um joalheiro 
do sculo passado.
- Muito obrigada - exclamou a jovem. - Posso coloc-lo?
- Claro, eu ficaria mesmo muito desapontado se voc no o fizesse - 
respondeu Varien.
Ela desprendeu as orqudeas que fixara no vestido e, quando quis colocar 
o broche, o duque ofereceu-se para faz-lo.
Prendeu-o com rapidez e delicadeza, mas quando seus dedos tocaram a pele 
da jovem, ela estremeceu. Ele a olhou, ento, com muito carinho e um 
brilho diferente nos olhos.
Antes que um dos dois pudesse falar, sir Charles entrou na sala.
No dia seguinte, Bettina e o pai estiveram inspecionando as cavalarias, 
e depois deram um passeio pelo parque.
O prprio chefe da cavalaria escolheu e recomendou um animal muito 
especial para a moa.
Bettina ganhara de uma das colegas do colgio um traje de montaria muito 
chique, mas seu pai no gostou, dizendo:
-  melhor voc mandar fazer um novo traje de montaria no alfaiate, pois 
na Inglaterra no se usa uma roupa to complicada para montar.
- Os alfaiates so muito careiros, papai.
- E que importa isso? - replicou sir Charles.
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Meio espantada, a jovem olhou com expresso inquiridora para ele.
- Varien j me disse que vai mandar fazer todo o seu enxoval.
- Oh, papai! Isso no  direito!
- Sim, talvez, mas voc no pode se casar com suas roupas de Cinderela. 
Varien est acostumado a mulheres bem-vestidas.
Muito sem graa, a jovem no respondeu. Sentia-se embaraada pela ideia 
de, mesmo antes de casar, usar roupas pagas pelo duque, enquanto o pai 
no hesitava em aceitar tudo com a maior tranquilidade.
Ouvira dizer que Varien dera muitos presentes a lady Daisy e lady 
Tathara, e pagara muitas contas delas. Justamente por isso, ela gostaria 
de ser diferente e de no aceitar nada dele antes de estarem casados.
Sir Charles no compreenderia essa relutncia. Apesar de nem ela nem o 
pai terem condies de pagar suas prprias roupas, gostaria que Varien 
soubesse de seu ponto de vista. Bettina no era e nem queria parecer 
gananciosa, aceitando tantos presentes do noivo.
Na noite anterior, ao tirar o brochinho de brilhantes, sentiu algo em 
seus reflexos, como se a houvesse alguma mensagem. Achou, em seguida, 
que era muita imaginao sua. Varien fora apenas generoso e amvel, pondo
uma pea pertencente  coleo Alveston  sua disposio.
Alm do mais, no iate, ele emprestara jias  lady Daisy e lady Tatham. 
Ao menos as orqudeas que lhe enviara eram mais pessoais, e jamais tinham 
sido usadas por outras pessoas.
Recriminou-se por estar refletindo sobre tudo aquilo. At parecia 
ingratido sua.
"Eu deveria estar me sentindo a pessoa mais feliz do mundo", murmurou 
para si mesma. No entanto, faltava-lhe alguma coisa.
Enquanto o pai fumava, refestelado numa poltrona, diante da lareira, 
Bettina dava voltas ao salo, examinando pea por pea. Que vontade de 
ver o resto do castelo... Mas Varien queria mostr-lo pessoalmente a ela. 
Comeou a contar as horas que ainda teria de esperar pela sua volta.
106
"Quero estar s com ele, para podermos conversar. O que ele ter para me 
dizer sobre o casamento?", murmurou ela para si prpria.
"Talvez ele queira um noivado prolongado, a fim de se acostumar  ideia 
de se casar novamente". Ela sentia pena ao pensar como teria sido seu
casamento anterior. "Vou fazer tudo para torn-lo feliz".
Acordando de seu cochilo, o pai perguntou-lhe:
- O que voc est examinando por a? Pretende descobrir alguma coisa?
- Apenas mais tesouros. Nunca vi tantas coisas raras numa nica sala.
- Espere para ver o resto do castelo. Foi crescendo atravs das geraes 
dos Alveston.
Como ela estivesse ouvindo com ateno, ele prosseguiu:
- No jardim h pequenos templos que vieram da Grcia, e no arsenal h 
armas que vieram da ndia e Turquia. Os mveis franceses so de uma 
beleza nica, enquanto os quadros e as tapearias so maravilhosos e 
valiosssimos.
Sentando-se ao seu lado, a jovem perguntou:
- Papai, eu gostaria de saber uma coisa.
- O que ? - perguntou ele com interesse. Voc acha possvel eu fazer o 
duque... feliz?
Sir Charles refletiu um momento, e depois disse, com cautela:
- Eu entendo o que voc quer saber, Bettina, e vou lhe responder 
francamente: no sei!
- Calculei que voc iria dizer isso, papai.
- Eu gosto muito de Varien, ele  um homem e tanto, generoso, amvel e
compreensivo... Mas h uma parede que o isola e que ningum consegue
transpor, nem seus amigos mais ntimos - comentou o pai, pensativo.
-  exatamente isso o que eu sinto - murmurou a jovem.
-  uma reserva, uma defesa talvez para encobrir seu casamento mal-
sucedido. De qualquer maneira, isso o torna um pouco distante.
Levantando-se, ele foi at a lareira e continuou:
- Voc  jovem, Bettina, e muito idealista. O que voc quer saber  se 
Varien chegar a am-la. Quer um final feliz para
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esse conto de fadas. Qual a mulher que no o desejaria? Calada, Bettina 
continuava encarando o pai.
- Por minha parte, s quero que vocs sejam felizes, como eu e sua me o 
fomos: a felicidade perfeita de duas pessoas que realmente se amam. No 
caso de Varien, no sei se voc vai conseguir romper a barreira existente 
entre ele e as pessoas que querem atingir seu corao.
Sir Charles jogou o charuto na lareira.
- Ora bolas! Eu deveria ter respondido de outra maneira, dizendo que voc 
certamente vai consegui-lo.
- , mas eu acabaria descobrindo a verdade, papai.
- Ento, s posso dizer que h uma sada: pela lateral. Vi muitos cavalos 
ganharem uma corrida saindo pela lateral.
Bettina levantou-se e beijou o rosto do pai. Obrigada, papai!
Quando ela se retirou, ele ficou olhando para ela com expresso de pesar.
Foram dormir cedo, naquela noite, porque, como sir Charles dissera, era o 
que ele precisava, depois de tantas noites em claro, jogando a bordo do 
Jpiter. Alm do que a neve deixava-o sonolento.
Bettina pde ver pela janela de seu quarto que, de vez em quando, por 
entre as nuvens, apareciam a luz cheia e uma ou outra estrela. No se
comparavam quelas que admirara com duque em alto-mar.
"Eu o amo! Gostaria que ele viesse a me amar, nem que fosse um pouquinho 
s", murmurou a jovem.
O jardinzinho interno, cheio de neve e com algumas rvores de ramos 
secos, completamente brancas, parecia um pas de sonhos.
" o pas das maravilhas, e apesar de o duque ser sem dvida alguma o 
prncipe encantado, certamente no sou a princesa que ele procurou a vida
inteira."
Pensando em tudo isso, deitou-se, examinando o quarto apenas iluminado
pelas chamas da lareira.
" tudo to lindo, mas falta amor! pensou romanticamente.
Estava quase dormindo, quando ouviu um rudo na janela. Pareciam batidas. 
No se importou, pois o vento, ao bater nas
108
vidraas, d frequentemente essa impresso.
Ouviu as batidas novamente, e percebeu que uma das janelas se abria. As 
cortinas foram separadas, e a luz das chamas mostrou lorde Edgard 
entrando no quarto!
Mais surpresa do que amedrontada, ela exclamou:
- O que o senhor est fazendo aqui!
Ele se aproximou da cama sem tirar o chapu e o longo casaco  escuro.
- Lorde Edgard! Por que veio ao castelo?
- Vim buscar voc!
- O que quer dizer com isso?
- Eu lhe disse que haveria de me casar com voc. Mas como voc  incapaz 
de decidir por si mesma, tomei esta resoluo - disse ele calmamente.
- No sei o que est dizendo - gritou a jovem. - O senhor precisa ir 
embora... V-se embora! No deveria estar aqui no meu quarto, como bem o 
sabe!
- Sim, eu vou-me embora... mas voc vai comigo. Vendo uma expresso 
estranha em seu rosto e percebendo
que ele havia tirado um leno do bolso, a moa recuou nos travesseiros e, 
estendendo as mos, gritou:
- O que est fazendo? V embora! No ouse tocar...
Antes que terminasse, eleja a amordaara com o leno, apesar de ela se 
debater com todas as foras. Enrolada nos lenis, ela no conseguira 
escapar pelo outro lado da cama.
Ele puxou uma longa tira de pano do bolso e, forando-a a manter os 
braos ao longo do corpo, amarrou-a fortemente. A seguir, retirou os 
lenis, e com outra faixa amarrou-lhe os tornozelos. Depois atirou um 
lenol aberto em cima dela e enroloua nele. A jovem debatia-se 
desesperadamente, tentando gritar, mas isso de nada adiantava.
Percebeu que ele a tomava nos braos e a colocava por cima do ombro.
Horrorizada, Bettina gritava interiormente pelo duque, na persuaso de 
que, se ele a amava verdadeiramente, deveria ter o pressentimento de que 
ela estava em perigo.
"Salve-me! Salve-me! Socorro! Oh, Deus, fazei com que Varien possa me 
ajudar! "
Percebeu que lorde Edgard atravessava o jardim, e a grossa camada de neve
abafava o rudo dos seus passos. Toda envolvida no lenol, parecia-lhe
que tudo aquilo era um pesadelo do qual seria impossvel acordar.
Ajude-me! Ajude-me! gritava interiormente para o duque. "Ele est me
levando... e voc no vai mais me encontrar.
Naquele momento, como se os cus tivessem ouvido sua prece, ela ouviu uma
voz bem conhecida, exclamar:
- Mas que diabo est acontecendo? Quem  voc? A ela ouviu uma espcie 
de tiro de pistola.
- Santo Deus, voc, Edgard! O que est fazendo aqui?
- Levando uma coisa que me pertence - replicou o outro, raivoso.
Bettina temeu que o duque no percebesse o que lorde Edgard estava 
carregando.
Ela queria gritar para chamar a ateno de Varien, mas lorde Edgard 
segurava-a com tanta fora que lhe tirava o ar.
- Mas que coisa? - perguntou o duque irritado.
- No  da sua conta! Deixe-me passar, Varien!
- No antes de eu ver o que est roubando da minha casa
- retrucou o outro.
- No vou mostrar-lhe de nenhum modo! - disse Edgard.
- Insisto nisso! - exclamou Varien.
O duque certamente investira contra Edgard, pois de repente Bettina 
sentiu-se atirada ao solo. Se no fosse pela grossa camada de neve, teria 
se machucado bastante.
com aquele movimento, o lenol se desenrolou, e ela viu lorde Edgard 
atirar-se contra o irmo.
Os dois lutaram violentamente, mas, como Varien era mais alto e forte, 
conseguiu afinal vencer Edgard.
Voltando-se imediatamente para Bettina, o duque levantou-a nos braos, e, 
apertando-a contra o peito, levou-a para dentro do quarto. Ali quis p-la
de p diante da lareira, mas, como ela tombasse em cima dele, s ento
percebeu que estava toda amarrada.
Segurou-a com um brao, enquanto com a outra mo lhe desamarrava a tira
de pano da boca e dos braos. Como a jovem chorasse convulsivamente, o
duque disse com carinho:
110
- Calma! Calma! Est tudo bem! J passou. Voc est em segurana.
Carregou-a para o leito, a fim de retirar a tira que lhe atava os ps.
Bettina, porm, estendia-lhe os braos e gritava, com palavras
entrecortadas:
- No, no! No posso dormir aqui! Ele vai voltar. Ele quer me levar 
embora!
Sem discutir, Varien tomou a jovem novamente nos braos e carregando-a
atravs dos longos corredores e escadas maliluminados, at a ala oposta
do castelo, entrou em um aposento.
- Aqui voc estar em segurana! Este quarto fica ao lado do meu, e 
ningum mais vai importun-la, eu lhe asseguro! disse o duque, colocando-
a cuidadosamente sobre a cama e desamarrando-lhe a tira dos tornozelos.
Sem poder v-lo direito, por causa das lgrimas, a moa pediu, 
desesperada:
- No me deixe, por favor... no v embora.
- No, eu no vou. Vamos conversar com calma, e voc vai me contar o que 
houve. Mas, se eu deixar a porta de comunicao aberta, voc permite que
eu v lavar as mos e o rosto?
S ento Bettina percebeu que Varien estava com a roupa molhada e suja. e 
que o lao da sua gravata estava desfeito, enquanto pelo seu rosto 
escorria um filetinho de sangue.
- Meu Deus! Voc est sangrando! Lorde Edgard o feriu!
- exclamou a jovem, assustada.
O duque ps a mo sobre o ferimento e comentou:
- Isso no  nada. Foi o anel dele que me cortou.
Deixando a porta bem aberta, ele desapareceu no outro quarto. Ela o ouviu 
falar com uma pessoa, provavelmente seu camareiro.
Sentindo ainda arrepios de frio e susto pelo terrvel pesadelo por que 
passara, pensou:
"Agora estou pertinho dele e lorde Edgard no pode mais ferir-me."
Apesar de o quarto estar aquecido pelo fogo da lareira, ela estava com os 
ps e as mos gelados. Encolheu-se mais embaixo da coberta com que Varien 
a cobrira to carinhosamente.
111
Olhou de relance para o aposento e viu que era um quarto grande, muito 
luxuoso. Na realidade, no queria olhar nada a no ser para a porta 
aberta, atravs da qual seu querido salvador passara.
S a comeou a refletir em como ele teria suspeitado de que alguma coisa 
errada estava acontecendo, enquanto ela, em pensamento, gritava 
desesperadamente por ele.
A expectativa de uma explicao era to grande que pareceu que uma 
eternidade se passara at o duque voltar. Varien colocou mais lenha na 
lareira, e as chamas crepitaram, alegres, iluminando tudo com sua luz 
dourada.
Quando ele se voltou, a moa viu como estava bonito, com um palet de 
veludo igual ao que costumava usar no iate e um cachecol de seda branco 
ao redor do pescoo.
com o rosto lavado, s se percebia um pequeno arranho em seu rosto. Ele 
puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama.
- Como  que eu ia adivinhar uma coisa dessas? Como poderia imaginar que 
voc estava sendo vtima de uma situao to perversa?
Bettina estendeu a mo, que ele tomou entre as suas, procurando aquec-
la.
- Eu chamei tanto por voc, em pensamento e com o corao... E de repente 
voc estava l!
- Acho que foi o instinto. Na volta de Londres, estava preocupado com 
voc. sem saber por qu.
Ele sorriu para ela e acrescentou:
- J no trem eu vinha pensando em voc, e quando cheguei ao castelo, 
senti como se voc estivesse desejando minha presena.
- Mas eu queria... desesperadamente! - murmurou a jovem.
-  claro que eu no podia vir ao seu quarto, quela hora, por isso 
resolvi dar a volta, para chegar ao jardinzinho e ver se ainda havia luz
na sua janela. E nem sei explicar por que decidi fazer isso - disse ele,
fazendo uma pausa, intrigado. Ento continuou: E no momento em que estava 
me recriminando por estar fazendo aquilo, percebi na neve fofa pegadas 
recentes, que me chamaram a ateno.
112
- Eu no podia gritar, mas rezei tanto! - disse a moa.
- Acho que pressenti isso - concluiu o duque. - E quando vi Edgard 
carregando alguma coisa, verifiquei que algo estranho estava ocorrendo.
- Voc percebeu que ele estava me carregando?
- No primeiro momento, no! No dava para ver que era um corpo. Tambm s 
estvamos iluminados pela luz da lua. A primeira ideia foi de que ele 
estivesse levando uma daquelas tapearias valiosssimas que vrias vezes 
ele me pediu para vender, a fim de levar o dinheiro para os seus pobres.
O duque parou um momento, e depois prosseguiu:
- S quando ele a deixou cair e o lenol se desenrolou  que pude ver o 
que realmente estava acontecendo.
Percebendo a fisionomia novamente amedrontada da moa, diante daquelas 
lembranas, ele sentou-se na beirada da cama e puxou-a para si, 
abraando-a pelos ombros, num gesto de proteo.
Bettina escondeu o rosto em seu ombro e murmurou:
- Fiquei com medo de que ele me levasse... e eu nunca mais tornasse a ver 
voc.
Apertando-a mais de encontro ao peito, ele perguntou:
- E isso lhe teria desagradado? Fiquei muitas vezes cismando se voc no 
teria preferido Edgard. Afinal, ele  bem mais moo do que eu.
- Eu o odeio! - disse a moa tremendo. - Ele  repulsivo, horrvel mesmo. 
E ainda mais agora... Sei que  malvado!
- No acho que ele seja malvado por querer voc.
- Imagine se ele tentar novamente? - sussurrou Bettina em tom 
amedrontado.
Levantando-se, o duque segurou-a pelos ombros e, muito gentilmente, fez 
com que ela se recostasse nos travesseiros. Olhando bem dentro de seus 
olhos, ainda assustados e temerosos, disse:
- Se voc quiser, poderemos assegurar-nos de que lhe ser impossvel 
repetir essa faanha.
- E... como poderemos fazer isso?
- Casando-nos imediatamente. Bettina deu um suspiro, e ele prosseguiu:
113
- Sendo minha mulher, Bettina, ningum ousar mais insult-la ou 
importun-la.
- Bem... eu me sentiria mais segura.
- Sentiria apenas isso? - perguntou o duque. Diante de sua expresso 
interrogativa, ele continuou:
- Eu queria saber por que voc chamou por mim quando ficou amedrontada. 
Afinal, seu pai estava muito mais perto.
Houve um silncio prolongado, e como Bettina baixasse os olhos, 
envergonhada, Varien pegou delicadamente seu queixo e a fez encar-lo.
- Olhe para mim, Bettina! Desejo uma resposta para minha pergunta.
- Eu... eu sabia que voc me salvaria.
- Sim, se eu estivesse ali. Mas como voc sabia que eu iria ouvir seu 
chamado silencioso, esse clamor que vinha do seu corao?
Era difcil desviar os olhos daquele rosto to bonito! Ento, compelida a 
dizer a verdade, Bettina murmurou:
- Eu sabia que me ouviria... porque eu te amo! - Logo imaginando que ele
poderia no gostar daquela declarao, acrescentou: - No quero ser
frvola... como outras mulheres. E nem fazer cenas, ou preocup-lo... Mas 
no consigo deixar de am-lo.
- Da mesma maneira como eu tambm no consigo deixar de te amar! - disse 
ele emocionado, curvando-se para beij-la.
Tudo foi to inesperado que Bettina, no primeiro instante, s ficou 
espantada e sentindo falta de ar.
Em seguida, caiu em si, percebendo ser aquele o momento que almejava h 
muito tempo.
Sentiu o calor de seus lbios, e parecia que ele estava absorvendo todo o 
medo e incerteza, e at os cimes das outras mulheres.
Enquanto o beijo se intensificava, um arrepio e uma onda de calor 
atravessaram o corpo de Bettina. Era como se todas aquelas estrelas e 
aquele infinito deserto que tinham apreciado fossem parte do milagre 
daquele beijo e da sua proximidade.
Havia msicas e flores naquele beijo, e um arrebatamento a dominava, 
deixando-a trmula de emoo.
114
Quando finalmente Varien afastou o rosto, devagarinho, viu
Bomo o semblante de Bettina irradiava felicidade e como seus
olhos brilhavam feito duas estrelas.
- Eu te amo! Eu te amo! - exclamou ela sem poder se conBrolar.
 - Nunca imaginei que o amor fosse to maravilhoso,
perfeito!
- Nem eu tampouco! - disse ele, mal contendo a emoo.
Olhando-o, atnita, ela disse:
- Voc est dizendo que me ama... um pouquinho?
- Como jamais amei algum na minha vida. Na realidade, anteriormente, eu
nunca soube o que era o verdadeiro amor.
- Isso  verdade?
- Tanto  verdade, que eu mal posso acreditar - respondeu ele. - Amei 
voc desde o primeiro momento, mas no queria admiti-lo.
- A primeira vez? - perguntou ela, olhando-o com carinho. Lembrou-se de 
como ele entrara no vago-escritrio do
trem, naquela manh, encontrando-a ali sozinha.
- Quando a vi de p, junto  escrivaninha, com as orqudeas no cabelo, 
voc estava envolvida por uma luminosidade misteriosa. Fiquei 
profundamente impressionado.
- Quer dizer... a luz da qual falamos... que era sinal de algo muito 
especial? - perguntou a jovem.
- Nesse caso, a luz foi um sinal de amor. Um tipo de amor que eu jamais 
conheci, minha querida!
- No posso acreditar! Voc  to maravilhoso, que eu no posso deixar de 
am-lo. Mas... por que voc me amaria?
Sorrindo, Varien respondeu:
- Talvez justamente porque voc  diferente de todas as mulheres que 
conheci at hoje.
Ele estendeu a mo para acariciar seus longos cabelos, que caam pelos 
ombros.
- At hoje, no conheci muitas mulheres boas, e voc minha querida, 
to boa, to pura e inocente!
- Eu quero ser boa para voc. At rezei para conseguir isso... Porm, 
nunca imaginei que voc viesse a me amar. Outro dia, papai me disse... 
Ele tambm acha que voc nunca me amaria.
115
- Seu pai tinha toda a razo. Para mim, o amor era uma iluso, algo banal
e que as mulheres chamam de romance. Mas quando a vi, minha querida,
percebi que o amor  a prpria vida... Uma vida como jamais conheci, mas 
que sempre desejei.
- Consigo realmente faz-lo sentir isso? - perguntou Bettina, emocionada.
- Sim, senti isso desde que a conheci. E quando estvamos no convs, 
olhando as estrelas, foi muito difcil no poder abra-la e dizer-lhe o 
quanto representava para mim.
- E por que voc no fez isso?
- No era o lugar adequado, e eu estava envolvido com pessoas que voc 
jamais deveria ter conhecido.
Certamente ele se referia a lady Daisy e lady Tatham.
- Tambm lorde Edgard disse isso. O duque deu um profundo suspiro.
- Nisso Edgard tinha toda a razo, e voc no pode imaginar como eu 
ficava com cimes dele.
- Cimes! - exclamou Bettina.
- . Eu sabia dos planos de seu pai para cas-la com Edgard. Ele me falou
sobre isso, e eu at concordei, achando que seria uma boa unio. Poderia 
mudar o monstro em que Edgard se transformou, em um ser humano, mas 
ento!...
O duque interrompeu-se.
- Ento... o qu? - perguntou Bettina.
- Eu desejei voc para mim - disse Varien desajeitadamente.
Depois de uma curta pausa, ele prosseguiu:
- Perguntei-me vrias vezes se eu no seria muito velho para voc, e se 
iria se adaptar ao meu tipo de vida.
- Querido Varien: eu te amo! Portanto, tudo isso no importa - confessou 
a jovem.
- Custei a compreender que estava farto daquele tipo de vida. Essa fase, 
apesar de ter durado tantos anos, tinha terminado. Era uma repetio de 
festas, reunies e, o pior, uma sucesso de mulheres diferentes.
Vendo a expresso de pena nos olhos dela, o duque sentiu-se novamente 
atrado e beijou-a.
116
Primeiro o beijo foi gentil e delicado, mas sentindo a maciez, a 
suavidade e o calor daqueles lbios to jovens e puros, tornou-se 
insistente e avassalador.
- Acho que estou sonhando... Eu sempre desejei dizer isso a voc... mas 
nunca esperei ouvir essas palavras.
- H muitos aspectos que temos de descobrir um no outro. Vamos comear 
viajando ao redor do mundo, descobrindo novos lugares e fazendo novos 
amigos?
Bettina no precisava dizer nada; seus olhos transmitiam a grande 
felicidade de sua alma.
- E se eu o aborrecer?
- Se isso acontecer, se um de ns se cansar do outro,  porque j no nos 
amamos. Mas oua, querida, tenho a impresso de que estamos realmente
apaixonados. E nossos coraes j o sabiam, quando estvamos
apreciando as estrelas. - Eu s descobri que estava apaixonada por voc
quando voc me salvou de cair no mar.
- Nem quero pensar que uma coisa daquelas poderia ter acontecido - disse 
Varien.
Ele se inclinou outra vez para beijar suavemente seus olhos, seu rosto e 
aquele pescoo de pele to alva e macia.
- Eu te amo! Meu Deus, como te amo! - ele exclamou.
- Mas oua, minha flor, voc teve uma experincia tremenda, e agora 
preciso deix-la, para voc poder descansar.
- Oh, no!... No me deixe!
Ela era to espontnea, que nem pensou no segundo sentido daquelas 
palavras.
Acariciando aquele rosto querido, carinhosamente ele disse:
- Essa felicidade no vai demorar. Ficaremos juntos dia e noite, meu 
amor, para que eu possa proteg-la e guard-la em segurana nos meus 
braos.
Beijou-a levemente.
- vou deixar a porta de comunicao aberta, para voc no ter medo. Se 
voc me chamar, eu ouvirei e virei imediatamente.
- Voc no queria olhar as janelas, para ver se esto bem fechadas?
- Estamos a uma altura de trinta metros, de forma que Edgard
117
s conseguiria subir se tivesse se transformado em aranha!
A ideia fez a jovem rir, como ele pretendia.
Ele atravessou o quarto para certificar-se de que as janelas estavam 
trancadas, e quando voltou, disse:
- Amanh faremos planos para que nosso casamento seja realizado o quanto 
antes.
Bettina soltou uma exclamao de alegria, e perguntou:
- Posso pedir uma coisa?
- O que ? - perguntou ele, curioso.
- Voc no vai ficar zangado?
- Claro que no.
- Ento... por favor... Ser que poderamos casar sem nenhum aparato?
Como ele no respondesse logo, ela continuou:
- Eu no suportaria ver seus amigos odiando-me por estar me tornando sua 
mulher...
- Continue!
- No dia do nosso casamento, eu no queria pensar em voc como um duque, 
mas apenas como homem, um homem que eu amo e que Deus me deu por 
marido...
Vendo o duque em silncio e temerosa de ter cometido um erro, Bettina 
acrescentou:
- Mas, naturalmente, se voc desejar que seja diferente, eu posso 
compreender, e farei como voc quiser...
Tomando-lhe a mo, Varien beijou-a carinhosamente.
- No respondi imediatamente porque estava pensando como sou feliz por 
ter encontrado voc. Era exatamente assim que eu desejava que minha 
mulher me compreendesse - como um homem. E como homem, minha querida,
posso dizerlhe que a amo de todo o meu corao.
- Oh, Varien!
Erguendo os braos, ela envolveu seu pescoo ternamente e puxou-o para 
si. E como, num prolongado beijo, os lbios dele no queriam se afastar 
dos dela, Bettina concluiu que Deus tinha atendido s suas preces.
118

CAPTULO VII

Ao acordar, mas ainda com os olhos fechados, Bettina no se deu conta de
onde estava. S depois de ouvir o mar e sentir seu balano, lembrou-se de
que estava a bordo do iate do marido.
Aos poucos, foi rememorando os ltimos acontecimentos. Na vspera, como o 
mar estava bravio, o duque exigira que ela permanecesse na cama. Os 
pensamentos agora tumultuavam em sua mente.
Sentindo algo meio pesado sobre o corpo, julgou que fosse o brao do 
marido, mas, estendendo a mo, sentiu algo macio e de l.
Naquele mesmo instante ouviu uma voz alegre dizer-lhe:
- Feliz Natal, minha querida!
Abrindo os olhos, ainda meio sonolenta, ficou felicssima ao ver o marido 
bem perto.
- Feliz Natal... Ah, Varien! Eu queria ser a primeira a
desejar isso.
 - Voc estava to linda, dormindo assim profundamente! - respondeu ele
sorrindo.
com a mo livre, ela tentava ainda descobrir o que era aquela coisa macia 
sobre ela. Repentinamente, soltou uma exclamao de alegria e sentou-se
na cama:
- Uma bota! Voc me trouxe uma bota de Natal! Eu tinha doze anos quando
ganhei a ltima. No ano seguinte, fiquei desapontada porque mame e papai  
me disseram que eu estava muito crescida para ganhar outra.
- Mas eu acho voc to jovem! Portanto, ainda pode ganhar uma - disse o 
duque com bondade.
com os longos cabelos claros espalhados pelos ombros, Bettina parecia, 
realmente, uma menina. Estava linda, rindo, com o presente na mos.
119
Era uma bota de l vermelha, enfeitada com cordes dourados e bolas
coloridas penduradas ao redor. Pegando-as, ela disse:
- Estas ns vamos estourar logo mais. Primeiro vou ver o que h dentro da 
bota.
O duque descansava, apoiando-se nos cotovelos. Olhava para Bettina com 
uma ternura que jamais algum vira em suas feies. Explorando o interior 
da bota, o primeiro objeto que a jovem pegou foi um pacotinho amarrado 
com uma fita. Abrindo-o, exclamou:
- Que bom! Eu nunca tive uma caixinha de msica, e esta parece muito 
antiga.
- Sim,  do sculo XVIII, e  francesa. Quando a vi, logo imaginei que 
iria gostar.
- Mas como adivinhou?
- Fiquei observando as coisas que lhe interessaram, quando visitamos o 
castelo juntos.
Ela lhe deu um sorriso cheio de felicidade e gratido. Nunca algum a 
observara to de perto e a conhecera to bem.
- Voc  encantador! Mas eu pensei que nossos presentes estariam debaixo 
da rvore de Natal, no salo.
- Estes so presentes secretos.
- Que bom! Por que no pensei em presentes secretos para voc?
- Voc me deu um ontem  noite - disse ele carinhosamente, fazendo-a 
corar.
A caixinha de msica parou de tocar e Bettina colocou-a de lado para, 
novamente, enfiar a mo na bota. Ao retir-la, estava com um brinquedo: 
um macaquinho abraado a uma vareta. Puxando a cordinha, ele subia e 
descia pela vareta. Dando risada, Bettina olhou para o marido.
- Onde voc arranjou isso? Eu tive um quando era bem pequena, e muitas 
vezes tive saudades dele.
Sorrindo, Varien disse:
- Voc me havia contado essa histria, e outro dia, quando ia saindo do 
clube, um vendedor ambulante oferecia uma poro deles.
- Ah! Eu o adoro! - E pondo a mo novamente dentro da bota, tirou desta 
vez uma ma, uma laranja e um estojinho
120
de p, todo trabalhado em marfim.
- Que lindo! vou t-lo sempre em cima de minha penteadeira.
A seguir tirou uma caixinha de veludo e, quando ia abrila, o duque 
cobriu-a com as mos, dizendo:
- Adivinhe o que .
- Nem posso imaginar.
Ento abra-a e veja se  o que voc queria. Bettina abriu ansiosamente a 
caixinha, e viu uma linda pulseira de ouro com uma gravao que leu em 
voz alta:
- "EU AMO BETTINA".
A jovem deu um gritinho de alegria:
- Como voc pensou em algo to original?
-  para voc usar no iate, quando as pedrarias dos Alveston forem 
pomposas demais.
- vou us-la todos os dias! Por favor, meu querido, ponhaa em meu brao - 
pediu a jovem, beijando-lhe o rosto.
Varien beijou-lhe o pulso, onde prendeu o bracelete.
Bettina levantou o brao e ficou girando-o no ar para poder apreciar a 
jia.
Julgando ter esvaziado a bota, Bettina apalpou-a por fora, mas sentiu que 
havia mais um volume. Tirou, ento, uma caixinha que no lhe era
estranha. Ao abri-la, soltou uma exclamao de surpresa e contentamento,
pois dentro dela estava a estrelinha de diamantes que pertencera a sua
me.
- Mas onde voc a encontrou? Como pde me dar uma coisa que eu tanto 
desejava? Oh! querido, querido Varien, estou to feliz!
- Seu pai me havia contado que a vendera para poder comprar roupas para a 
viagem ao Egito. Eu fui at a loja e, felizmente, eles ainda no a tinham 
vendido.
com os olhos cheios de lgrimas por se lembrar to nitidamente da me, a 
moa atirou-se nos braos do marido.
- Oh, Varien, querido! Muito... muito obrigada! Quantos presentes lindos 
voc me deu!
- So apenas smbolos do meu grande amor por voc, querida. E eu vou lhe 
dar muitos outros.
Parecia que, desde o dia do casamento, ele s conseguia expressar
121
seus sentimentos dando-lhe presentes.
Durante a tranquila cerimnia de casamento, celebrada na capela do 
castelo na presena de sir Charles, ajoelhada ao lado de Varien, ela 
pedira a Deus que a ajudasse a transpor aquela barreira que envolvia o 
corao dele.
Parecia-lhe, naquele momento, ser impossvel am-lo mais do que o amava, 
mas com a convivncia pde perceber como aquele sentimento aumentava de 
hora em hora.
Era como se tivesse penetrado num sonho glorioso, to encantador que 
parecia irreal e, no entanto, to vivo.
Ela sentia cada nervo do corpo vibrar como a corda de um instrumento 
musical, quando Varien se aproximava. Seu toque provocava-lhe sensaes 
deliciosas.
Lembrou-se de como, ao descer as escadarias do castelo com o vu de 
finssima renda e a tiara usados pelas noivas da famlia Alveston atravs 
das geraes, compreendera que o conto de fadas do qual o pai lhe falara 
se realizava finalmente.
Estendendo-lhe a mo, Varien lhe disse que ela era a princesa que ele 
buscara durante toda a sua vida.
Por outro lado, a reserva em que ele se mantinha espontaneamente ou 
levado pelas circunstncias com certeza no desapareceria como num passe 
de mgica.
S a fora daquele magnfico sentimento poderia remover, aos poucos, a 
muralha atrs da qual ocultara, cuidadosamente, seu corao. Portanto, 
cabia a ela e somente a ela descobrir o caminho que a levaria at l.
Sentira receio de no conseguir atingir esse alvo. Os ardentes beijos de 
Varien, entretanto, testemunharam-lhe que ele a amava profundamente.
Na hora em que Varien lhe colocara a aliana, repetindo, com firmeza, os
votos matrimoniais, Bettina sentiu que na realidade eles estavam se
transformando numa nica pessoa. "Nosso amor foi abenoado por Deus, e
juntos vamos superar todas as dificuldades que porventura surgirem", 
pensou a jovem, olhando o tapete de veludo vermelho que se estendia a sua 
frente, ao descer do altar pelo brao do marido. Todas as providncias 
para o casamento e para a lua-demel tinham sido tomadas pelo duque, o 
qual com sua rapidez
122
 deixara Bettina e o pai quase sem flego.
- Mas voc no pode partir outra vez, to de repente, para o exterior - 
comentara sir Charles atnito.
- Bettina quer conhecer o outro extremo do canal de Suez e o mar
Vermelho, e vamos satisfazer seu desejo - replicara o duque com os olhos
brilhando de felicidade. Voltando-se para a noiva, acrescentara:
- No  verdade, querida? Vamos ter uma lua-de-mel prolongada, e quando 
voltarmos, dentro de alguns meses, seremos um velho casal, e ningum mais 
vai se interessar por ns e nem se intrometer em nossa vida.
Percebendo o que ele pretendia com aquele plano, a jovem achou que aquela 
era a melhor soluo.
- Realmente,  o caminho mais sensato a seguir - comentou sir Charles.
- Eu tinha certeza de que voc compreenderia, Charles
- dissera o duque, olhando significativamente para o futuro sogro.
Aqueles dois homens s estavam pensando na felicidade e no bem-estar da 
jovem Bettina, afastando-a dos maldosos comentrios que o casamento de 
Varien suscitaria, principalmente entre as mulheres que haviam 
participado do seu passado.
Virando-se para a noiva, ele comentou:
- Agora, querida, voc s tem de refazer suas malas. E, abraando-a, 
acrescentou: - Oua, Charles, Bettina e eu conversamos e conclumos que 
voc no deve passar o Natal sozinho. Por que no convida alguns amigos 
para virem fazerlhe companhia, aqui no castelo?
- Posso mesmo fazer isso, Varien? - perguntou sir Charles, radiante.
- Oh, papai, voc deve aceitar. Sentiramos remorsos por deix-lo s, 
justamente na poca das festas. Em casa, quando eu era pequena, esta era 
uma poca muito especial para ns.
Sir Charles aceitara aquele oferecimento com indisfarvel prazer. 
Quando, no dia seguinte ao do casamento, eles partiram, apertando a mo 
do marido, Bettina dissera:
- Voc foi to bom para papai! Nada no mundo lhe daria maior prazer do 
que representar o anfitrio no castelo.
123
- Ah, creio que ele ser um otimo castelo! - disse o duque, embaraado
diante daquele agradecimento pela sua generosidade.
Na vspera do casamento, Bettina, aproveitando um momento em que estavam 
a ss, lhe perguntara, meio hesitante:
- O que foi feito de lorde Edgard?
- No precisa preocupar-se com ele, por uns bons anos.
- O que voc quer dizer com isso?
- Mandei-o cuidar de umas terras que possumos na frica. L precisam ser 
feitas vrias reformas, e h muitas injustias a serem reparadas, 
portanto Edgard estar no seu ambiente.
E ele concordou em ir?
- Ele no tinha muita escolha.
- Mas voc o obrigou a obedec-lo?
- Sim! - respondeu o duque com severidade. - No quero v-la preocupada 
ou temerosa com sua presena na Inglaterra.
Bettina ainda quis dizer que j no sentia tanto medo. Mas, abraando-a, 
Varien beijou-a efusivamente, o que a fez esquecer qualquer outra coisa.
Na vspera do casamento, Bettina sentira-se insegura, pensando em quantos 
aspectos da vida e da personalidade do duque lhe eram desconhecidos. Em 
certos momentos ainda ficava temerosa.
Mas, agora, novamente a bordo do Jpiter, Varien no lhe parecia mais to 
senhoril quanto no castelo.
O ambiente no iate mudara totalmente sem as mulheres tagarelas e os olhos 
inquisidores de lorde Edgard a sua procura.
Cada vez que o duque a abraava e a apertava contra o peito, parecia-lhe 
estar num barco mgico, sendo transportada para um local secreto de 
completa bem-aventurana, onde ningum iria perturbar sua felicidade.
As barreiras existentes no ntimo dele estavam ruindo, pouco a pouco.
Em sua voz no havia mais aquele tom seco, aquela frieza no seu olhar, e 
tampouco o sorriso cnico em seus lbios; Suas palavras, como seu olhar, 
s transmitiam amor. s
124
vezes percebia uma grande ternura em suas feies, o que fazia seu
corao pular de alegria.
No sabia que, para o duque, ela personificava a flor com a qual ele a 
identificara.
Como homem experiente da vida, ele sabia que, devido a sua juventude e 
inocncia, teria de lhe ensinar muitas coisas, mas de maneira sutil, para 
no atemoriz-la ou choc-la. Varien reconhecia que sua gentileza e 
compreenso despertavam nela um xtase que transformava as relaes dos 
dois em algo divino, porque ela era como uma flor que abria as  ptalas
ao calor do sol.
Cada dia ele a despertava um pouco mais, at que, na noite anterior,
conseguira despertar nela a chama sublime que reacenderia o fogo h muito
apagado dentro de si mesmo.
Ao adormecer, Varien sabia que encontrara a pedra do toque mgico que 
todos os homens procuram, mas muito poucos acham.
- Como eu te amo! Oh, Varien, eu te amo! - murmurou a jovem, enquanto ele 
a abraava com imensa ternura, sentindo a maciez do seu corpo de encontro 
ao seu. - Mal posso acreditar que hoje  Natal e estamos aqui sozinhos, 
em vez de rodeados por uma poro de pessoas, numa suntuosa festa no 
castelo.
- Isso eu jamais tive inteno de fazer - disse Varien. Ele percebeu que 
ela se referia a lady Daisy, que se autoconvidara.
-  to excitante ter um Natal apenas com voc! - disse ela aconchegando-
se em seus braos.
- Vamos passar muitos Natais juntos, e quando voc quiser, daremos uma 
festa - disse ele sorrindo.
- Depende de quem vamos convidar.
- Vamos escolher juntos nossos convidados, assim como tudo o mais, e no 
caso de voc ficar desapontada, tenho certeza de que o mestre-cuca 
providenciar um pudim de ameixas e outras coisas tradicionais bem 
indigestas.
- Incluindo, assim o espero, um ramo de azevinho pendurado, para dar 
sorte e obrigar os casais a se beijarem.
- Mas tambm posso beij-la sem estar embaixo de um
125
deles - complementou o duque, beijando-a sensualmente e sentindo o leve
estremecimento do seu corpo.
- Ainda consigo excit-la, minha querida? Enrubescendo a essa observao, 
ela escondeu o rosto no
seu peito e murmurou:
- Foi to maravilhoso... a noite passada! Era como se voc me carregasse 
para as estrelas... as estrelas que veremos quando chegarmos a Suez.
- Sim, ns as admiraremos como fizemos naquela noite. E voc repetir, 
mais uma vez, que considera ser um privilgio estar viva.
-  um privilgio ser sua esposa - disse a jovem apaixonadamente -, e 
sinto-me muito mais privilegiada porque voc me ama um pouco.
- Voc acha que  s um pouco? - perguntou o duque.
-  porque o amo com todo o meu corao e todo o meu ser. Por isso acho 
que voc no pode me amar tanto assim.
- No vou lhe dizer que a amo ao mximo, porque, a cada instante, eu 
prprio descubro novas perspectivas para o
meu amor.
Inclinando a cabea para olh-la, viu o rubor em suas faces, um brilho de 
desejo em seus olhos, a respirao rpida que fazia seus seios levantarem 
e abaixarem, debaixo do leve tecido da camisola.
- O que h em voc, que a faz to diferente das outras pessoas? - 
perguntou ele, intrigado. Afastando os cabelos da jovem para trs, a fim 
de deixar-lhe o rosto bem livre, ele continuou: - Voc  muito bonita, 
seus traos so perfeitos, mas h muito mais atrs disso. Talvez, minha 
querida, seja a pureza da sua alma, atravs dos seus olhos, dialogando 
com a minha, da qual tinha me esquecido, at o dia em que a conheci.
Bettina arregalou os olhos. Ele nunca lhe falara to seriamente. Por isso 
estendeu os braos, pondo-os ao redor do seu pescoo, a fim de puxar a 
cabea dele para junto da sua.
- Ns pertencemos um ao outro, Varien. Agora, tenho certeza de que 
formamos uma s pessoa.
- Foi voc quem encontrou a chave para a nossa felicidade.
- Que  o amor.
126
 - Sim, o amor que eu jamais imaginei encontrar, e que nunca poderia
estar nos lugares em que o procurei.
Ela percebeu que ele se referia  frivolidade caracterstica de 
Marlborough House e da sua prpria casa em Londres.
- Mesmo assim, ainda temos nossas responsabilidades para com o lugar onde 
nascemos.
Compreendendo sua inteno, ela disse em voz baixa:
- Voc precisa me ajudar a no cometer falhas. Percebo que sou ignorante 
em muitos aspectos. com voc ao meu lado tenho certeza de que farei tudo 
como deseja.
- Voc  muito jovem, e no entanto existe muita sabedoria nessa cabecinha 
- disse ele, beijando-lhe a testa e acrescentando: - No vamos antecipar 
nada do que reside no futuro, mas vamos gozar a felicidade deste momento, 
porque estamos na nossa lua-de-mel e, principalmente, por estarmos juntos 
neste dia de Natal.
-  exatamente o que desejo. Mas h uma coisa que eu gostaria de lhe 
dizer - murmurou Bettina.
- E do que se trata? - perguntou ele curiosamente.
- Na noite passada, pouco antes de adormecer, eu estava pensando como 
voc foi maravilhoso e como me fez intensamente feliz.
O duque abraou-a, emocionado, e ela prosseguiu:
- Lembrei-me tambm dos lindos presentes que me deu, desde o magnfico 
anel de noivado, o casaco de peles para esta viagem, os elegantes 
vestidos que  vamos apanhar em Nice e, agora, a estrelinha de diamantes
de mame. Oh. Varien. so tantas coisas!
- E muitas outras eu quero lhe dar. Eu a amo tanto, minha querida, que
gostaria de pegar as estrelas do cu e pendurlas, como um colar, no seu
pescoo.
- E foi o que voc fez - murmurou a moa. - Mas colocou-as no meu 
corao.
- Como tambm esto no meu - completou ele.
- Deixe-me terminar meu pensamento: estive pensando que no tenho nada 
para lhe dar em troca.
Ele quis apartear, mas ela colocou um dedo sobre seus lbios, e ele o 
beijou e permaneceu calado.
127
- Eu desejaria muito dar-lhe algo especial como smbolo do meu grande 
amor: algo que no pudesse ser comprado, pois nem tenho dinheiro para 
isso, mas que lhe dissesse como o amo e como lhe sou agradecida por esta 
felicidade.
Chegando-se mais a ele e abraando o seu peito fortemente, ela 
acrescentou:
- A, ouvi dentro de mim uma voz que me dizia qual deveria ser o smbolo 
do meu amor.
- E qual ? - perguntou ele ternamente.
- vou tentar dar-lhe muitos e muitos filhos iguais a voc.
- E eu quero muitas e muitas filhas iguais a voc, minha querida - disse 
ele, acariciando-lhe o rosto.
O tom da sua voz revelou a Bettina o quanto Varien estava emocionado com 
o que ela dissera. Alm disso, havia um brilho diferente em seus olhos, 
que a fez prosseguir:
- Se tivermos filhos, eles povoaro o castelo, que ento no parecer to 
amedrontador para mim.
- Voc no tem nada a temer, enquanto estiver comigo
- contestou o duque com firmeza, dando-lhe um beijo.
- E se voc no estiver?
Ele sabia a que ela se referia, por isso tornou a beij-la e disse:
- Onde quer que eu esteja, voc estar comigo. Voc me pertence, Bettina, 
e no posso viver sem voc. Meu corpo  seu e o seu  meu, bem como 
nossos coraes, nossos pensamentos e nossos sonhos. Minha vida est 
indissoluvelmente unida a sua; agora e para sempre, ns somos um s.
Como era a confirmao que ela tanto desejara ouvir, acabou dissipando as 
ltimas dvidas da sua mente.
Enquanto seus lbios, muito macios e desejosos, esperavam pelos dele, 
Bettina percebeu que a ltima barreira dentro do peito de Varien estava 
sendo vencida. Ele lhe pertencia, tambm, integralmente.
Abraando-a com ternura, ele a beijou, primeiro com suavidade, depois
intensa e possessivamente, at chegar ao auge da paixo, e ela sentiu que
estava sendo novamente transportada para as estrelas.
128

                            ***

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
